O que muda

A chegada dos agentes de inteligência artificial, programas capazes de executar tarefas sem supervisão, não deve tirar do mercado as empresas que vendem software para outras empresas. Mas vai mudar a forma como elas cobram e o que oferecem aos clientes.

A avaliação é de analistas do Bank of America (BAC 🇺🇸), em relatório resumido pelo site Investing.com em 24 de outubro de 2026. Para o banco, o temor de que as fornecedoras tradicionais de software fiquem obsoletas é exagerado.

A Gartner (IT 🇺🇸), empresa americana de pesquisa e consultoria, e a consultoria Bain chegaram a conclusões parecidas em estudos publicados neste ano.

Do protótipo ao sistema

Com a IA, ficou barato montar o protótipo de um programa, a versão de teste usada para mostrar uma ideia. Isso alimentou a tese de que qualquer empresa poderia passar a desenvolver o próprio software.

O Bank of America contesta essa leitura. Segundo os analistas, há uma distância grande entre uma demonstração que funciona e um sistema corporativo que precisa rodar sem falhas, todos os dias, para muita gente.

Integrar o programa a outros sistemas, protegê-lo de ataques e mantê-lo atualizado continua sendo trabalho para fornecedores estabelecidos, avalia o banco.

Onde está o valor

Na visão do banco, a IA não elimina as vantagens competitivas das empresas de software, mas as desloca. Telas bem desenhadas e serviços de implantação padronizados tendem a valer menos.

Passam a contar mais os dados exclusivos da empresa, o conhecimento de cada setor, a relação com o cliente e o controle dos processos executados pela IA.

Os fornecedores dos sistemas centrais das empresas, como cadastro de clientes e contabilidade, podem até sair fortalecidos, segundo o relatório.

Os números

O Bank of America projeta que os gastos das empresas com software cresçam cerca de 13% ao ano entre 2025 e 2030. A projeção se mantém mesmo diante de possíveis mudanças nos orçamentos de tecnologia.

Pelos dados que as próprias empresas de software divulgam, a IA representa hoje de 1% a 11% da receita. Entre as que fazem projeções de médio prazo, essa fatia deve chegar a algo entre 5% e 30% das vendas.

Os analistas suspeitam que a participação real seja maior, porque muitos recursos de IA vêm embutidos em produtos já existentes. As americanas costumam detalhar mais essa receita do que as europeias, e poucas empresas divulgaram metas de faturamento com a tecnologia.

Como cobrar

O modelo de cobrança ainda é uma incógnita, segundo o banco. Os fornecedores testam formas de cobrar pelo uso ou pelo resultado entregue, além da tradicional assinatura por usuário.

Rodar modelos de IA também custa caro, o que pode apertar as margens. A Gartner vê o mesmo movimento: quando um agente faz o trabalho, a receita do fornecedor fica menos atrelada ao número de usuários.

As contas da Gartner

A Gartner estima que até US$ 234 bilhões em gastos com aplicativos corporativos estão expostos à concorrência dos agentes até 2030. No fim da década, o montante deve corresponder a cerca de 20% dos gastos com software vendido por assinatura.

Segundo a consultoria, a tela do programa deixou de ser diferencial. "O software por assinatura não será destruído; vai ressurgir em outra forma", afirmou George Brocklehurst, vice-presidente da Gartner, no comunicado de 1º de julho.

Para ele, a mudança ameaça quem insiste em painéis antigos e na cobrança por usuário. E abre espaço para empresas nascidas com a IA e para prestadores de serviço que conectem os agentes a diferentes sistemas.

A aposta da Bain

A Bain vê na mudança uma oportunidade de US$ 100 bilhões só nos Estados Unidos. O dinheiro está na automação do trabalho que liga um sistema a outro: copiar dados de um programa, conferir com outro, interpretar e-mails confusos e decidir quando chamar alguém.

Hoje, os fornecedores ficam com US$ 4 bilhões a US$ 6 bilhões desse total, segundo estudo divulgado em 7 de maio. Incluídos Canadá, Europa, Austrália e Nova Zelândia, o mercado potencial dobra, para cerca de US$ 200 bilhões.

Pelas contas da consultoria, agentes podem assumir de 40% a 60% das tarefas de atendimento ao cliente e de pesquisa e engenharia. Em finanças e recursos humanos, a fatia fica entre 35% e 45%.

Para David Crawford, que comanda a área de tecnologia, mídia e telecomunicações da Bain, a IA reabre a disputa pelos sistemas centrais das empresas. Foi nesse terreno que as fornecedoras de software construíram suas defesas nas últimas duas décadas.

⚠️ Divergência identificada: Bank of America e Bain divergem sobre o futuro dos donos dos sistemas centrais das empresas. Para o banco, eles podem sair fortalecidos. Para a Bain, a vantagem migra de quem controla um único sistema para quem enxerga o trabalho que passa por vários.

Ressalvas

O relatório do Bank of America é restrito a clientes e não foi consultado no original. Os números vêm do resumo publicado pelo Investing.com em inglês e traduzido com ajuda de IA para a edição brasileira.

Não foram divulgados a data do relatório, os analistas responsáveis nem as empresas analisadas. A participação de 1% a 11% da IA na receita se baseia no que as próprias empresas declaram, sem auditoria.

Todos os números são projeções ou estimativas. Não está claro se os US$ 234 bilhões da Gartner são um valor anual ou acumulado até 2030, e a Bain não informou o prazo de suas estimativas.

Gartner e Bain vendem pesquisa e consultoria às empresas do setor que analisam.