Da comparação com a TV em cores ao próprio erro de cálculo
Em junho de 2025, Sergio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, deu uma entrevista sobre o mercado de carros elétricos. Ele comparou a chegada do elétrico à da televisão em cores, do computador pessoal e da máquina de lavar roupa. Essas tecnologias tomaram o mercado rápido assim que chegaram, e o carro elétrico foi tratado como o próximo salto inevitável. Para Habib, isso não se confirmou: o carro elétrico não cresceu no ritmo esperado, e as montadoras perderam dinheiro apostando nisso.
Oito meses depois, o presidente global da Stellantis, Antonio Filosa, disse algo parecido à imprensa brasileira. Segundo o site especializado Motor Show, ele afirmou que a companhia superestimou o ritmo da transição energética. A Stellantis reúne marcas como Fiat, Jeep, Ram, Citroën e Peugeot. O erro de cálculo tem preço: US$ 26,5 bilhões.
"[A Stellantis] superestimou o ritmo da transição energética" — Antonio Filosa, presidente global da Stellantis, à Motor Show.
Seis montadoras já cortaram US$ 60 bilhões, segundo os próprios balanços
Entre o fim de 2025 e fevereiro de 2026, seis montadoras anunciaram cortes de investimento em carros elétricos. Juntas, elas somam US$ 60,7 bilhões. O jornalista Pedro Kutney, do site especializado AutoData, chegou a esse total somando os comunicados e balanços que cada empresa já divulgou.
A Stellantis corta US$ 26,5 bilhões, a maior fatia. A Ford vem em seguida, com US$ 19,5 bilhões. A General Motors e o grupo Volkswagen/Porsche cortam US$ 6 bilhões cada uma. A Honda reduz US$ 1,7 bilhão, e a Nissan, US$ 1 bilhão.
O levantamento soma apenas o que cada empresa já divulgou em anúncios e relatórios financeiros. Nenhuma das seis anunciou saída do mercado de elétricos. Os cortes valem para metas futuras de investimento, não para os carros já em produção.
Por que a conta não fechou
Desenvolver um carro novo do zero custa cerca de R$ 1,2 bilhão e leva 30 meses, segundo a Motor Show. Trocar o motor a combustão por bateria e motor elétrico eleva esse custo entre 40% e 50%.
A demanda do consumidor por elétricos ficou abaixo do previsto. O preço da bateria segue alto, e a infraestrutura de recarga é insuficiente, sobretudo na América Latina. Os incentivos governamentais também recuaram em vários países. Fabricantes chinesas, enquanto isso, dominam a cadeia de baterias e conseguem produzir mais barato.
Parte do setor responde com o híbrido. Ciro Possobom, presidente da Volkswagen no Brasil, disse à Motor Show que os próximos lançamentos da marca no país serão eletrificados. No caso, o termo significa híbrido, não 100% elétrico.
O outro lado do gráfico: o mundo comprou mais elétrico em 2025 do que nunca
Segundo o relatório Global EV Outlook 2026, da consultoria BloombergNEF, o mundo deve vender mais de 23 milhões de carros elétricos em 2026. O volume equivale a 27% de todos os carros vendidos, contra 9% cinco anos antes.
A China sozinha respondeu por 63% das vendas globais de elétricos em 2025. Cingapura chegou perto de 50% de penetração de elétricos no mesmo ano. No Vietnã, as vendas quase dobraram, para 179 mil unidades — 39% de penetração. Na Turquia, as vendas mais que dobraram, e o elétrico já é 22% do mercado.
O recuo está concentrado em outro lugar: nos Estados Unidos. A BloombergNEF projeta queda de 19% nas vendas americanas de elétricos em 2026. A causa é regulatória. O governo americano suspendeu metas federais de economia de combustível e reduziu os incentivos da Lei de Redução da Inflação. Pela mesma projeção, só 24% da frota americana deve ser elétrica em 2040.
No Brasil, o mesmo recuo aparece também nos concorrentes chineses
O recuo não é exclusivo das montadoras ocidentais tradicionais. No Brasil, as vendas da BYD caíram 35% no primeiro bimestre de 2026, ante o mesmo período do ano anterior. O dado é do jornal Perfil, que cita levantamento do jornalista americano Paul Eisenstein.
O mesmo levantamento lista 18 montadoras tradicionais com prejuízo atribuído aos lançamentos de elétricos, entre elas Ford, GM, Honda, Nissan, Volkswagen e Porsche. A Honda registrou o primeiro prejuízo trimestral de sua história de 70 anos, segundo a mesma reportagem.
Habib, da JAC — marca com a maior linha de elétricos do Brasil — fala em erro de cálculo do setor nesse cenário. A JAC não divulga publicamente o resultado de sua própria operação de elétricos no país. A fala de Habib não é dado auditado: é a opinião de um executivo cuja empresa compete diretamente no segmento que ele analisa.
Ressalvas
A fala de Sergio Habib, que abre este texto, é opinião de um executivo de montadora concorrente no mercado que ele analisa. Não é dado auditado.
O corte de US$ 60,7 bilhões soma anúncios de seis montadoras entre o fim de 2025 e fevereiro de 2026. Quem levantou o total foi o jornalista Pedro Kutney, a partir de comunicados e balanços das próprias empresas. É agregação editorial sobre dado público, não um relatório de uma única fonte externa.
A lista de 18 marcas com prejuízo (Perfil, citando o jornalista Paul Eisenstein) inclui marcas de nicho e de luxo, como Lamborghini e Maserati. A reportagem de origem não detalha o tamanho do prejuízo de cada marca individualmente.
A queda de 35% da BYD no Brasil cobre uma janela de dois meses. Pode refletir sazonalidade, não necessariamente uma tendência estrutural.