O resultado e o que surpreendeu
A Vale faturou US$ 10,5 bilhões no segundo trimestre de 2026, 19% a mais que um ano antes. O EBITDA ajustado ficou em US$ 3,676 bilhões, alta de 9% no ano. É a geração de caixa da operação, já contadas as despesas extraordinárias, e veio um pouco abaixo do consenso LSEG de US$ 3,8 bilhões.
Há uma segunda versão do mesmo número. A pro forma tira do cálculo os custos de Brumadinho e da descaracterização de barragens, e sobe para US$ 4,066 bilhões, alta de 19%, com margem estável em 39%.
A diferença entre as duas contas é de método, não de operação. O pro forma é a régua que os bancos usam para medir quanto caixa a empresa gera de forma recorrente. Por isso o resultado aparece como acima do esperado. O Itaú BBA confirma: “A Vale reportou EBITDA pro forma de US$ 4,1 bilhões no 2T26, +4% em relação ao trimestre anterior e +19% em relação ao mesmo período do ano passado, cerca de 5% acima de nossa estimativa e das expectativas do consenso de US$ 3,8–3,9 bilhões.”
O lucro líquido dos acionistas foi de US$ 1,375 bilhão, ou R$ 6,847 bilhões. Caiu 35% em dólares e 43% em reais na comparação anual — a diferença entre os dois percentuais é o real valorizado no período. O BTG esperava US$ 2,8 bilhões, e todas as casas atribuem o desvio a variação cambial e a derivativos que jogaram contra, itens que elas classificam como não recorrentes.
Custos sob pressão: o ponto de atenção
O ponto que mais chamou atenção foi a revisão do custo do minério de ferro. A Vale elevou a projeção do custo caixa C1, o que se gasta da mina até o porto, de US$ 20,0–21,5 para US$ 22,5–23,5 por tonelada. O custo total, incluindo tudo, subiu de US$ 52–56 para US$ 58–62 por tonelada. As contas assumem dólar médio a R$ 5,13 e petróleo Brent a US$ 86.
A empresa dá três motivos. Concentrou mais minério, o que exige mais processamento. Suspendeu temporariamente as operações de Fábrica e Viga. E fez a manutenção bienal programada nas instalações de Sudbury, no Canadá.
Os bancos acharam o ajuste esperado. Para o BTG Pactual, “o guidance atualizado deve agora dar ao mercado maior confiança na execução da Vale, com riscos de queda limitados a partir daqui”. O Itaú BBA chamou o movimento de neutro. O Bradesco BBI diz que os pontos negativos são “amplamente transitórios e já amplamente precificados”, e manteve a tese de investimento.
Metais básicos e o potencial de longo prazo
A divisão de Metais Básicos foi o destaque do trimestre. Gerou US$ 1,3 bilhão de EBITDA, 13% acima do que o BTG projetava. O motor foram os embarques de cobre, que bateram recorde de 98 mil toneladas, com preço realizado 6% acima do esperado.
A Vale também elevou o piso da produção de 2026: cobre passou de 350–380 mil para 360–380 mil toneladas, e níquel de 175–200 mil para 185–200 mil. Os custos totais de cobre e níquel caíram US$ 1.000 e US$ 2.000 por tonelada no ponto médio.
Para o BTG, o preço da ação não reflete o que essa divisão pode virar. A empresa projeta chegar a cerca de 500 mil toneladas de cobre até 2030 e a 700 mil até 2035. Isso a colocaria entre os maiores produtores do mundo. “Em nossa visão, isso ainda está longe de ser refletido no valuation”, diz o banco.
Retorno ao acionista
A Vale gerou US$ 1,5 bilhão de caixa livre no trimestre e reduziu a dívida líquida expandida de US$ 17,8 bilhões no primeiro trimestre para US$ 16,7 bilhões. A área financeira diz confiar em fechar 2026 perto de US$ 15 bilhões.
O conselho aprovou R$ 2,030721898 por ação em dividendos e juros sobre capital próprio, US$ 1,7 bilhão no total, com pagamento em setembro. Aprovou também recompra de até 100 milhões de ações, cerca de 2% do que circula no mercado. Somados, dão um retorno semestral em proventos de aproximadamente 2,7%. O BTG projeta 8% a 9% de retorno total ao acionista em 2026.
A VALE3 fechou 31 de julho a R$ 76,34 na B3, alta de 0,25%, num dia em que a bolsa abriu atrasada por falha técnica. Em Nova York, o ADR caía 1,63%, a US$ 14,75. As ações acumulam queda de cerca de 15% desde a máxima de abril de 2026. Negociam a 4,2 vezes o EBITDA projetado para 2026, múltiplo que o BTG considera abaixo do que a empresa vale.
O que os bancos recomendam
Nenhuma casa mudou recomendação nem preço-alvo depois do balanço.
O BTG Pactual mantém compra, com alvo de US$ 18,00 por ADR e R$ 90,00 por VALE3, o que projeta retorno total de 25,6% contando dividendos. O Itaú BBA mantém outperform, com alvos de US$ 19,00 e R$ 95,00 para o fim de 2026, ou 26,7% acima do fechamento de 30 de julho. O Bradesco BBI também mantém compra e trata os pontos negativos como passageiros.
A XP Investimentos é a única fora do coro: segue neutra. Mesmo assim reconhece EBITDA pro forma “cerca de 3%–4% acima das estimativas da casa e do consenso” e vê com bons olhos o dividendo e a recompra.
Duas coisas mandam daqui pra frente. A primeira é o preço do minério de ferro com 62% de teor entregue na China. As casas usam US$ 100 por tonelada para projetar EBITDA de US$ 17 a 17,5 bilhões no ano. E a operação de Metais Básicos, sobretudo os embarques de cobre nos próximos trimestres.