US$ 1,92 bilhão em quatro meses, 21% acima da média de três anos
Desde maio, quando o acordo entre Mercosul e União Europeia passou a valer, a Argentina vendeu aos europeus 44% mais dos produtos agrícolas com imposto de importação menor. A comparação é com a média de maio a agosto de 2023, 2024 e 2025.
Os dados são da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca da Argentina, com base nas estatísticas do INDEC, o instituto oficial de estatística do país. Foram divulgados em 1º de outubro de 2026.
Somando todos os produtos do agro, as vendas à Europa chegaram a US$ 1,92 bilhão de maio a agosto. O valor ficou 21% acima da média dos mesmos meses dos três anos anteriores. A comparação não é com 2025.
Nos produtos com tarifa reduzida, US$ 372 milhões a mais
Nos produtos que ganharam redução de tarifa pelo acordo, a Argentina vendeu US$ 372 milhões a mais que a média dos três anos anteriores. Essa é a alta de 44% destacada pelo governo.
Por cadeia produtiva, o governo informou altas de 154% em produtos de ovinos, 116% em ingredientes para a indústria de alimentos e 105% em tabaco. Pescados subiram 93%, produtos da apicultura como o mel 87%, ração animal 75%, cítricos 59% e carne bovina 50%. Todas as altas usam a mesma base de três anos.
Pela conta deste artigo, a alta do agro veio inteira dos produtos com tarifa reduzida. O total de US$ 1,92 bilhão, 21% acima da média, parte de uma base perto de US$ 1,59 bilhão. A alta total fica, portanto, perto de US$ 334 milhões, menos que os US$ 372 milhões dos produtos com desconto. Pela mesma conta, os demais produtos venderam entre US$ 32 milhões e US$ 45 milhões menos que a média.
O acordo e o peso da Europa para o agro argentino
O Mercosul reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O bloco assinou o acordo com a União Europeia em janeiro de 2026, depois de 25 anos de negociação, segundo a Reuters. O acordo passou a valer de forma provisória em 1º de maio.
O texto corta tarifas e cria cotas, volumes fixos que entram na Europa pagando imposto menor. Em agosto, o governo argentino informou que já usava cotas de mel, ovos, arroz e carnes.
A União Europeia comprou mais de US$ 6 bilhões do agro argentino em 2025, segundo o governo. Foi o segundo destino do setor naquele ano, atrás da China.
A conta da Bolsa de Rosário, com outra base
A Bolsa de Comércio de Rosário, entidade privada ligada ao comércio de grãos, fez outra conta com dados do INDEC. Segundo o informe, divulgado no fim de agosto, as exportações argentinas à União Europeia somaram US$ 2,48 bilhões de maio a julho de 2026. O valor ficou 13,1% acima do mesmo período de 2025.
A conta da Bolsa cobre toda a exportação à Europa, não só o agro, e três meses em vez de quatro. A base também muda: o mesmo período de 2025, e não a média de três anos. Por isso os 13,1% e os 21% não se contradizem, nem se comparam diretamente.
De janeiro a julho, pela mesma conta da Bolsa, a Argentina exportou US$ 5,19 bilhões à Europa. São 19% a mais que os US$ 4,37 bilhões de igual período de 2025.
Ressalvas
Os números de maio a agosto vêm do governo argentino, que defende o acordo. A escolha da média de três anos como base também foi dele. O comunicado de agosto do mesmo órgão comparava o primeiro semestre com 2025 e trazia valor e volume: alta de 30% em dólares e de 14% em toneladas. O de outubro traz só valor.
Sem dado de volume, não dá para saber quanto da alta veio de preço e quanto veio de quantidade vendida. O governo também não diz se as altas por cadeia produtiva cobrem todos os produtos ou só os que tiveram tarifa reduzida.
O comunicado de outubro não foi localizado no site do governo argentino. Os números foram lidos nas reproduções da Infobae, do La Nación e do Aduana News, que coincidem entre si. O site da Reuters não pôde ser acessado na pesquisa, e o texto da agência foi lido na reprodução da CNN Brasil.
O cálculo das vendas dos produtos sem desconto é deste artigo, feito com percentuais arredondados pelo governo, e por isso vem como faixa. Quatro meses de dados não separam o efeito do acordo de outros fatores, como safra, câmbio e demanda europeia.