R$ 24,52 bilhões em golpes, R$ 2,2 bilhões de volta

Entre janeiro de 2022 e abril de 2026, as instituições financeiras brasileiras confirmaram R$ 24,52 bilhões em transferências pelo Pix tomadas em golpe. Desse total, R$ 2,2 bilhões voltaram para quem perdeu — R$ 8,90 a cada R$ 100. Os valores estão nas Estatísticas de Fraude no Pix que o Banco Central publica no portal de dados abertos, sob licença que permite a qualquer um baixar a série e refazer a conta.

O caminho de volta se chama Mecanismo Especial de Devolução, o MED. A vítima registra a contestação no aplicativo do banco em que tem conta, e a instituição que enviou o dinheiro pede à instituição que recebeu que devolva o valor.

A leitura da série é do jornal O Povo, publicada em 24 de julho de 2026, e cobre 52 meses. Foram 53 milhões de contestações registradas e 14,1 milhões aceitas pelas instituições — as outras 73,3% foram recusadas. A média é de 271,5 mil fraudes confirmadas por mês. Dividido o valor confirmado pelo número de casos aceitos, cada golpe confirmado levou R$ 1.739, em cálculo próprio.

O dinheiro já tinha saído da conta

Dos R$ 22,31 bilhões que não voltaram às vítimas, R$ 13,7 bilhões pararam na mesma barreira: a conta que recebeu a transferência não tinha saldo suficiente quando o pedido de devolução chegou. É 61,7% de tudo que ficou pelo caminho, segundo a apuração sobre os dados do Banco Central.

O MED alcança o dinheiro que ainda está na conta de destino. Quando o golpista saca ou transfere o valor logo depois de recebê-lo, o pedido chega a uma conta vazia, e a devolução deixa de ser uma questão de análise para virar uma questão de saldo.

R$ 10,1 bilhões de prejuízo em 2024, R$ 5 bilhões de prevenção em 2025

Isaac Sidney, presidente da Febraban, apresentou em 12 de março de 2025 o número anual da entidade: golpes financeiros causaram R$ 10,1 bilhões de prejuízo em 2024, contra R$ 8,6 bilhões em 2023 — alta de 17%. O recorte da Febraban é mais amplo que o do MED, porque inclui canais eletrônicos e cartões, e não só o Pix.

Em 25 de fevereiro de 2026, ao anunciar o Febraban SEC, a federação informou que os bancos gastaram cerca de R$ 5 bilhões em segurança e prevenção a fraudes e crimes cibernéticos no ano anterior. É esse gasto anual que sustenta o mercado de tecnologia antifraude no país.

1,49 milhão de tentativas em três meses, pela conta de quem vende defesa

A Serasa Experian contou 1.495.696 tentativas de fraude de identidade no primeiro trimestre de 2026, alta de 36,6% sobre o mesmo trimestre de 2025. Meios de pagamento responderam por 644.586 delas, e São Paulo, por cerca de 230 mil — 15,8% do total nacional. Os números saem do Mapa da Fraude, levantamento que a empresa monta sobre as transações em que ela própria participa da decisão de risco.

Em 20 de agosto de 2026, a mesma empresa divulgou 1.747.373 tentativas no primeiro semestre inteiro, alta de 9,5%, no recorte de abertura de cadastro. Uma tentativa não é uma perda: o levantamento conta o ataque, não o dinheiro que saiu.

⚠️ Divergência identificada: Os dois levantamentos da Serasa Experian não fecham entre si. O primeiro trimestre de 2026 aparece com 1.495.696 tentativas e alta de 36,6%; o primeiro semestre inteiro, com 1.747.373 e alta de 9,5%. Somado o segundo trimestre a um primeiro daquele tamanho, o total semestral teria de ser bem maior. A empresa declara recortes diferentes — identidade e cadastros no primeiro caso, abertura de cadastro no segundo —, e nenhum dos dois comunicados reconcilia as séries. Os dois números aparecem aqui como foram publicados, sem escolha de versão.

O relatório que diz que atacar ficou mais barato

A Liminal e a Unico publicaram em julho de 2026 o relatório Identity Fraud Intelligence: Trends and Insights. A Unico é uma empresa brasileira de verificação de identidade: ela confere, para bancos e empresas, se quem abre uma conta ou assina um contrato é mesmo quem diz ser. A Liminal é uma casa de inteligência de mercado de Nova York, que vende pesquisa para esse mesmo setor de identidade, fraude e segurança digital. O levantamento foi montado sobre os dados da rede de verificação da própria Unico, entre junho de 2025 e abril de 2026. O documento informa que um ataque sofisticado ficou mais de cem vezes mais barato e que 23,3% dos casos classificados usam método avançado. Outros 45,8% são ataques de injeção — nome que o setor dá à fraude que insere uma imagem ou um vídeo direto no sistema, sem passar pela câmera do aparelho. Um único perfil fraudulento apareceu ligado a 949 documentos de identidade distintos e chegou a 30 empresas.

Evandro Ernani, chefe de engenharia do IDCloud da Unico, deu o exemplo em 13 de agosto de 2026, no SP2B, evento de inovação em São Paulo. Segundo ele, o custo mensal de um ataque sofisticado caiu de R$ 5 mil para menos de R$ 30. Roberto Rebouças, gerente-geral da Kaspersky no Brasil, participou da mesma conversa. A divisão de R$ 5 mil por R$ 30 dá 167 vezes, e não as cem do relatório: o exemplo dado no palco e a medida publicada não são o mesmo número, em cálculo próprio.

As duas vendem para o mercado que o relatório mede. O documento não publica quantos profissionais foram ouvidos, que países entram na amostra nem por qual critério um caso é classificado como sofisticado. Nenhum dos números acima é auditado.

O tamanho de quem vende a defesa

A Unico é uma empresa brasileira de capital fechado. Virou unicórnio em agosto de 2021, com um aporte de R$ 625 milhões liderado por SoftBank e General Atlantic. Luis Felipe Monteiro, CEO da empresa para a América Latina, informou ao InfoMoney em 1º de junho de 2026 que a receita internacional cresceu 130% no primeiro trimestre. O volume de verificações de identidade subiu 84%, e o crescimento consolidado foi de 34%. A empresa opera em 20 países e projeta expansão de 30% a 40% no ano.

Nenhum desses números tem balanço auditado público: a empresa não tem capital aberto e a informação é declarada por ela mesma. Serasa Experian e Kaspersky, as outras duas fontes de números deste resumo, também vendem produtos de prevenção a fraude. O registro do Banco Central não depende de nenhuma delas.

Ressalvas

A série do MED não foi lida na origem. A API de dados abertos do Banco Central devolveu bloqueio de robots.txt para a ferramenta de coleta, e o bloqueio não foi contornado por outro meio. Os valores usados vêm da apuração do jornal O Povo, de 24 de julho de 2026, que declara metodologia e trabalha sobre o dado oficial. A série continua pública, sob licença ODbL, e pode ser conferida por qualquer leitor.

O número anual da Febraban mais recente localizado é o de 2024, divulgado em março de 2025. Não foi localizado valor de prejuízo referente a 2025, e por isso a comparação com o gasto de prevenção de 2025 junta anos diferentes.

Os dois levantamentos da Serasa Experian sobre 2026 não fecham entre si, conforme registrado na divergência da seção correspondente. As duas séries vêm de recortes distintos do mesmo Mapa da Fraude, e nenhum dos comunicados as reconcilia.

Os números do relatório Liminal/Unico são autodeclarados e não auditados, produzidos sobre rede proprietária, sem metodologia publicada, por duas empresas que vendem para o mercado que o relatório dimensiona. O mesmo vale para os dados de crescimento da Unico. A reportagem de entrada, do NeoFeed, é peça editorial assinada por repórter do veículo. O mesmo veículo mantém conteúdo de marca pago pela Unico em seção própria, publicado em 22 de agosto de 2024 sob a etiqueta Apresentado por Unico.

O TI INSIDE devolveu HTTP 403 e a GIF Consulting, bloqueio de robots.txt; nenhum dos dois foi contornado. As mudanças de regra do Pix em curso no Banco Central ficaram fora do recorte deste resumo.