O edital: o que foi anunciado

Em 30 de julho de 2026, a Comissão Europeia abriu a licitação para construir até sete AI Gigafactories na União Europeia. É o maior investimento coordenado em infraestrutura de computação da história do bloco. Quem publicou o edital foi o EuroHPC Joint Undertaking, órgão supranacional que administra os supercomputadores europeus. As propostas se encerram em 12 de novembro de 2026, e a Comissão pretende anunciar os vencedores no começo de 2027.

Cada gigafactory terá pelo menos 100 mil chips especializados de IA. Isso a torna cerca de quatro vezes mais potente que o maior data center de IA em operação na UE hoje. Cada instalação deve consumir entre 120 e 150 megawatts — o que abastece, sem parar, de 290 mil a 365 mil residências europeias médias.

Dezoito Estados-Membros assinaram o acordo de compra conjunta com o EuroHPC: Croácia, Chéquia, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Polônia, Portugal, Eslováquia, Espanha e Suécia.

O que €30 bilhões realmente significam

O número da manchete é €30 bilhões: até €10 bilhões de dinheiro público, da UE e dos Estados-Membros, e pelo menos €20 bilhões que se espera do capital privado. O detalhe muda o quadro. Só cerca de €1 bilhão está comprometido no orçamento europeu em vigor, e vem de programas como Horizonte Europa, Europa Digital e Mecanismo Interligar a Europa. Os outros €9 bilhões da parte pública dependem do próximo Quadro Financeiro Plurianual, o orçamento de longo prazo do bloco, ainda em negociação. Um funcionário graduado da Comissão disse isso a jornalistas no dia do lançamento: “Não podemos antecipar as decisões sobre o próximo QFP.”

O Regulamento 2026/150, em vigor desde janeiro de 2026, limita a 17% a parte que a UE pode bancar do custo de capital de cada instalação. Os 83% restantes têm de vir dos governos nacionais e de investidores privados.

A licitação tem dois lotes. O menor financia até quatro projetos, com até €100 milhões por projeto na primeira fase e mais €400 milhões na segunda. O maior oferece até €200 milhões de início e €800 milhões na fase seguinte.

Soberania com chips americanos: o paradoxo central

A Comissão assinou cartas de intenção com Nvidia, AMD e Qualcomm para garantir o hardware das gigafactories. As três são americanas. Dezoito parlamentares europeus registraram preocupação com essa dependência antes mesmo de o edital sair.

A resposta da Comissão é pragmática: a soberania que se busca não é de equipamento, e sim de jurisdição. Dado processado em gigafactory europeia fica sob lei europeia, fora do alcance do CLOUD Act — a lei que permite às autoridades americanas exigir dados de empresas dos EUA onde quer que estejam os servidores.

O argumento ganhou concretude em junho de 2026, quando controles de exportação americanos suspenderam por um tempo o acesso global a modelos da Anthropic.

Há ainda um problema técnico embutido. Cada fabricante usa arquitetura própria para interligar os chips: NVLink e NVSwitch na Nvidia, Infinity Fabric na AMD. Gigafactories montadas em torno de fornecedores diferentes não vão passar trabalho de uma para outra com facilidade, o que limita a interoperabilidade real do conjunto.

A perspectiva chinesa: integração em vez de concentração

Em 10 de junho de 2026, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China, o MIIT, publicou um plano de três anos para integrar a IA às redes de comunicação do país, de 2026 a 2028. As metas são mensuráveis. Cobrir 75% das áreas metropolitanas com acesso a computação em latência de 1 milissegundo, ou seja, resposta praticamente instantânea. Colocar de pé mais de 30 casos de uso de alto valor com IA em telecomunicações. E chegar a 2028 com redes no estágio que o plano chama de “inteligência autônoma de alto nível”. Para 2030, o horizonte é avançar nas tecnologias centrais.

As duas apostas são diferentes. A Europa concentra dinheiro em infraestrutura dedicada a treinar modelos de fronteira, os sistemas de IA mais avançados que existem. A China tece a IA na malha das redes que já operam. A corrida segue aberta, e ninguém sabe de que lado estará a vantagem.

Quem está na corrida: telecom na linha de frente

Podem se candidatar consórcios ou empresas criadas só para o projeto, reunindo fornecedores de tecnologia, operadoras de nuvem, entidades públicas e investidores. A fase exploratória recebeu 76 manifestações de interesse, em 16 Estados-Membros e 60 locais. Análises de mercado apontam que cerca de 10 consórcios devem apresentar proposta de fato. Ao menos dois reconsideraram a participação quando o projeto mudou de tamanho.

Entre os confirmados estão a Deutsche Telekom, com a Brookfield, e o consórcio francês AION, que reúne Orange, Iliad, Ardian, Artefact, Bull, Capgemini, EDF e Scaleway. A Telefónica lidera a candidatura espanhola com a MasOrange e coordena o EURO-3C, projeto financiado pela Comissão para montar a primeira infraestrutura compartilhada de nuvem na borda da rede de telecomunicações, em 13 países europeus.

A presença das operadoras faz sentido estratégico. O gasto das empresas com IA está migrando do treinamento dos modelos para o uso diário deles, e usar exige resposta em menos de 100 milissegundos — o que só funciona se o servidor estiver perto de quem pergunta. Nisso a rede da operadora entra na conta, e não apenas os grandes centros de treinamento.

Riscos, críticas e linha do tempo

O edital saiu com mais de um ano de atraso. Estava previsto para o segundo semestre de 2025.

A crítica de fundo é de oportunidade. As gigafactories foram desenhadas para treinar modelos, justamente quando o mercado empresarial migra para o uso deles. O Interface, centro de estudos europeu de energia e política digital, alerta para outro risco: sem terrenos adequados e sem ligação firme à rede elétrica, as instalações podem virar ativo encalhado. Nas palavras do estudo, “construir instalações de centenas de megawatts que não utilizem efetivamente sua capacidade contratada seria insustentável econômica e energeticamente”.

A Mistral não esperou. A principal desenvolvedora europeia de IA investiu €1,2 bilhão num data center na Suécia em fevereiro de 2026 e levantou centenas de milhões para outra instalação perto de Paris. Fica a pergunta de quem as gigafactories vão servir, se as candidatas naturais já se resolveram sozinhas.

Mantido o calendário, as primeiras entram em operação em meados de 2028. Quatro coisas precisam dar certo antes: o próximo orçamento plurianual europeu sair aprovado, o capital privado aparecer, a rede elétrica dar conta e o acesso ao hardware americano continuar aberto.

Divergências documentadas

São três, e todas seguem abertas.

A primeira é de dinheiro. A Comissão anuncia €30 bilhões; o orçamento em vigor tem cerca de €1 bilhão comprometido. Os €9 bilhões restantes da parte pública dependem de uma negociação política que não terminou.

A segunda é de demanda. A fase exploratória colheu 76 manifestações de interesse. As análises de mercado apontam cerca de 10 candidatos com intenção real de licitar.

A terceira é de coerência. O projeto se apresenta como soberania tecnológica e se apoia em chips da Nvidia, da AMD e da Qualcomm, três empresas americanas — cujas arquiteturas proprietárias ainda limitam a troca de trabalho entre as próprias gigafactories.