Safra recorde e a virada do milho
A safra 2025/26 virou um marco para o etanol de milho no Brasil. Foram 10,17 bilhões de litros, alta de 29,8% sobre a safra anterior, segundo a CONAB. O milho já responde por mais de 27% de todo o etanol do país, que somou 37,5 bilhões de litros — recorde da série da estatal.
No mesmo período, o etanol de cana recuou 6,9%, para 27,33 bilhões de litros. Pesaram a produtividade menor da lavoura e a concorrência do açúcar, que puxa a cana para o outro lado. O Mato Grosso firmou-se como segundo maior produtor de etanol do Brasil, atrás só de São Paulo.
É esse o pano de fundo das projeções que Renato Pretti, presidente da CerradinhoBio, apresentou na Reunião Anual Fermentec 2026, em 30 e 31 de julho. Contando os projetos já contratados ou em estágio avançado, ele calcula que o etanol de milho brasileiro pode chegar a 16 ou 17 bilhões de litros. A safra atual deve fechar perto de 12,5 bilhões; a próxima, em torno de 15 bilhões. Em menos de uma década, o segmento terá multiplicado por mais de cinco a produção das primeiras plantas.
CerradinhoBio: perfil, resultados e expansão
A CerradinhoBio começou a produzir etanol de milho em novembro de 2019 e virou uma das referências do segmento. A unidade de Chapadão do Céu, em Goiás, processa entre 3.300 e 3.400 toneladas de milho por dia, e deve consumir cerca de 1,2 milhão de toneladas do cereal no ano. O milho é 70% do volume processado; a cana, os outros 30%.
Na safra 2025/26 a empresa lucrou R$ 372,7 milhões, 90% a mais que no ciclo anterior. O salto veio de vender dois produtos diferentes, açúcar e etanol de milho, o que a protege quando um dos dois cai de preço.
O conselho de administração aprovou há pouco a expansão da unidade Neomille, em Chapadão do Céu. São R$ 140 milhões, com partida prevista para agosto de 2026. A obra aumenta a capacidade em cerca de 30% e consolida o processamento de 1,2 milhão de toneladas de milho por ano na unidade.
O problema da demanda
A oferta cresce, mas Pretti avisou que a margem aperta. No dia da apresentação, a paridade do etanol hidratado estava em torno de 58% — quer dizer, o litro custava 58% do preço da gasolina. Acima de 70%, o motorista prefere gasolina; nesse patamar o etanol vende, só que sobra pouco para a usina. Some-se o crédito mais difícil e o endividamento crescente do setor. O produtor rural que quer montar uma unidade nova esbarra em financiamento, em preço agrícola baixo e na complexidade de tocar uma planta industrial.
Para reequilibrar oferta e demanda, o presidente da empresa aponta três caminhos. O primeiro é a reforma tributária, que pode abrir de 1,5 a 2 bilhões de litros de mercado interno. O segundo é elevar a mistura de etanol na gasolina de 32% para 35%, o chamado E35, que acrescentaria cerca de 1 bilhão de litros de demanda. O terceiro depende dos Estados Unidos: se os americanos adotarem o E15, o mercado de lá saltaria de cerca de 50 bilhões para 80 bilhões de litros, e abriria espaço para exportação brasileira.
Riscos estruturais
O risco principal é o próprio executivo quem aponta: a oferta cresce rápido e a demanda não acompanha no mesmo passo. Quem sente primeiro são as plantas menos eficientes ou mal localizadas.
Três outras variáveis seguem no radar. O preço do milho, que é a matéria-prima. O limite do mercado de DDG, o grão seco que sobra da destilaria e vira ração animal — se sobrar DDG demais, o preço cai e a receita da usina encolhe. E a oscilação do petróleo, que mexe no preço da gasolina e, por tabela, na paridade do etanol.
Pretti segue otimista, mas com condição. O crescimento continua desde que apareçam mercados novos, as usinas ganhem eficiência e o setor vigie a velocidade com que projetos novos entram em operação.
Ressalvas
As projeções de produção do setor — 12,5, 15 e 16 a 17 bilhões de litros — são estimativas apresentadas pelo presidente da CerradinhoBio num evento setorial. Não passaram por auditoria de órgão independente. O ponto de partida, os cerca de 10 bilhões de litros da safra passada, esse sim a CONAB confirma: 10,17 bilhões.
O lucro de R$ 372,7 milhões, alta de 90%, é dado da própria empresa, divulgado pelo Money Times. A CerradinhoBio não tem capital aberto e não publica demonstrações auditadas.
Há uma divergência que fica registrada sem solução. Em julho de 2026, no Fermentec, Pretti estimou que o E35 acrescentaria 1 bilhão de litros de demanda. Em março do mesmo ano, no BioMilho Brasil 2026, ele falou em até 3 bilhões. Pode ser cenário diferente ou base de cálculo diferente; as fontes não explicam.