A promessa
Programas de inteligência artificial passaram a vigiar riscos em canteiros de obra e na manutenção de estradas. Mas ninguém de fora das empresas que vendem ou usam essas ferramentas mostrou, até agora, que elas diminuem os acidentes.
A rede americana CNBC levantou a questão em reportagem de 31 de outubro de 2026. O título pergunta se a IA, que chega aos canteiros, deixa os trabalhadores mais seguros.
As ferramentas analisam vídeos curtos que o próprio trabalhador grava no celular antes de começar o serviço. O programa aponta riscos de segurança, de qualidade e de prazo. O supervisor acompanha tudo à distância.
Quem vende
A startup britânica FYLD, que vende esse tipo de programa para empresas de infraestrutura, captou US$ 41 milhões em fevereiro de 2026. O fundo americano Energy Impact Partners liderou a rodada, com participação do fundo europeu Partech.
A FYLD afirma ter reduzido em até 48% os acidentes e incidentes graves nos clientes desde o lançamento, em 2020. A empresa não divulgou como fez a conta, e nenhum auditor externo conferiu o número.
Segundo a CNBC, Shelley Copsey, presidente e cofundadora da FYLD, trabalhou antes para o fundo de pensão canadense Ontario Teachers'. O fundo, que investe em infraestrutura, a encarregou de buscar tecnologia para resolver problemas das empresas da carteira.
O teste da Amey
A Amey, empresa britânica de manutenção de estradas e outras obras públicas, testou o programa da FYLD por três meses. O teste cobriu mais de 500 serviços, e 95% deles tiveram avaliação de risco feita com IA.
No período, 85% dos usuários usaram a ferramenta de forma constante, segundo a Amey. Em março de 2026, a empresa anunciou a adoção para mais de 2.500 trabalhadores da divisão de rodovias.
Em página própria, a Amey diz que a ferramenta ajudou a identificar e controlar mais de 12 mil riscos nos canteiros. A empresa também diz que a avaliação antes do serviço ficou até 50% mais rápida.
A Amey não divulgou o número de acidentes antes e depois do teste. Os dados publicados mostram quanto a ferramenta foi usada, e não quantas pessoas deixaram de se ferir.
O que a ciência mediu
Nove pesquisadores procuraram provas de que ferramentas de IA reduzem lesões e doenças no trabalho. O levantamento saiu em julho de 2025 na revista científica Systematic Reviews.
Os autores reuniram 1.255 estudos publicados entre 2018 e abril de 2024. Só dois mediram o efeito da IA sobre lesões ou doenças com o rigor exigido.
Os pesquisadores classificaram um dos dois como de qualidade média e o outro como de qualidade baixa. O mais bem avaliado testou um programa de conversa automática com 94 funcionários de escritório no Japão.
O alvo desse teste eram dores em músculos e articulações, e não riscos em canteiro de obra. Os autores concluíram que pode ser prematuro recomendar o uso amplo da IA para saúde e segurança nos locais de trabalho.
As mortes na construção britânica
Na Grã-Bretanha, 25 trabalhadores da construção morreram em acidentes de trabalho entre abril de 2025 e março de 2026. Nos doze meses anteriores, foram 35 mortes.
A média anual dos cinco anos encerrados em março de 2026 ficou em 37 mortes. Os dados são do HSE, órgão do governo britânico para saúde e segurança do trabalho, e ainda são provisórios.
As estatísticas oficiais não separam obras com e sem IA. Waleed Umer, professor da Universidade de Northumbria, no norte da Inglaterra, vê a IA como mais um par de olhos na obra. Para ele, a ferramenta não substitui o supervisor, segundo o site de notícias TokenPost.
Ressalvas
A reportagem da CNBC não abriu pela ferramenta de leitura, e não houve tentativa de acesso por outro meio. Do texto original, foram lidos só o título e o primeiro parágrafo, reproduzidos pelo BizToc, site que reúne notícias de outros veículos.
A passagem de Shelley Copsey pelo Ontario Teachers' vem apenas desse trecho. Não foi possível confirmar se o fundo é ou foi sócio da FYLD.
O corte de até 48% nos acidentes graves e os números do teste da Amey são declarados pelas próprias empresas. Nenhum deles passou por auditoria ou estudo independente.
A revisão científica cobre estudos publicados até abril de 2024. Uma busca por estudos posteriores, sem vínculo com fornecedores e com dado de acidente em obras, não encontrou nenhum.
O site do HSE não abriu pela ferramenta. Os números de mortes vêm de boletim do escritório de advocacia DAC Beachcroft e ainda são provisórios.
A fala de Waleed Umer aparece só no TokenPost, entre as fontes de informação consultadas. O site publicou no mesmo dia da CNBC e pode ter partido da reportagem dela.