Petróleo numa camada mais funda, 49 dias depois da primeira descoberta
A Petrobras encontrou petróleo de novo, numa camada mais funda do mesmo poço no mar do Amapá que já tinha dado petróleo em agosto. O anúncio saiu em 2 de outubro de 2026, em comunicado da empresa.
O poço se chama Morpho e fica a 175 quilômetros da costa, sob 2.886 metros de água. Ele está no bloco FZA-M-59, área de exploração na Foz do Amazonas em que a Petrobras tem 100% de participação, segundo a BPMoney.
A primeira descoberta foi anunciada em 14 de agosto. Entre um anúncio e outro passaram 49 dias, pela conta deste artigo. A empresa seguiu perfurando para avaliar camadas de rocha mais profundas, e foi nelas que achou o novo trecho com petróleo.
Segundo a Petrobras, o achado foi confirmado por medições elétricas feitas dentro do poço, por pedaços de rocha e por amostras de fluido. As amostras ainda vão passar por análise de laboratório.
O comunicado não informa quanto petróleo há nas duas camadas, nem se a extração daria lucro.
De “presença de hidrocarbonetos” a óleo de “boa qualidade”
No comunicado de agosto, a Petrobras falou em presença de hidrocarbonetos, nome que reúne petróleo e gás natural. A empresa não disse qual dos dois tinha encontrado, segundo o ClimaInfo, site de notícias sobre clima.
Na mesma época, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que havia descoberta, mas não uma descoberta comercial, capaz de pagar o custo de tirar o petróleo.
Em 21 de setembro, a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação, Renata Baruzzi, chamou o óleo de “altíssima qualidade”. A declaração veio depois da análise de uma amostra no centro de pesquisas da empresa, no Rio, segundo a Reuters.
Baruzzi disse que o óleo pode ser melhor que o do pré-sal, a camada no litoral do Sudeste de onde a Petrobras tira a maior parte do petróleo. Chambriard confirmou a qualidade, mas disse que a amostra ainda era pequena para medir, por exemplo, quanto gás vem junto com o óleo.
No mesmo evento, a diretora de Exploração e Produção, Sylvia Anjos, disse que faltavam 200 metros de perfuração para chegar ao “coração do poço”. O comunicado de outubro não informa a que profundidade está a nova camada.
Quanto petróleo a Foz do Amazonas pode ter, segundo a EPE
Para a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal ligada ao Ministério de Minas e Energia, a Foz do Amazonas pode ter 5,7 bilhões de barris de petróleo possíveis de extrair. O número foi citado pela Gazeta do Povo no dia do anúncio.
A Agência Brasil citou outra conta da EPE, de até 10 bilhões de barris, que soma petróleo e gás natural convertido em barris. A de 5,7 bilhões conta só petróleo.
Se os 5,7 bilhões se confirmarem, as reservas comprovadas de petróleo do Brasil, o volume que já se sabe extrair com lucro, subiriam 33%. As da Petrobras subiriam até 55%, segundo a Gazeta do Povo.
Nenhum desses números mede o poço Morpho. São estimativas para toda a Foz do Amazonas, e a Petrobras não divulgou o volume das duas descobertas.
Licença do Ibama, recurso do MPF e mais três poços
A Petrobras recebeu do Ibama, órgão federal de licenciamento ambiental, a licença para perfurar o Morpho em outubro de 2025, segundo a Agência Brasil. A autorização abriu disputa entre o setor de petróleo e ambientalistas.
O Ibama já autorizou os três próximos poços da campanha na Foz do Amazonas, segundo a eixos, agência de notícias de energia. Em agosto, a Petrobras tinha nomeado esses poços como PAD-Morpho, Manga e Crotalus, segundo o ClimaInfo.
Os novos poços servem para medir o tamanho da descoberta, e a empresa só vai dizer se ela é comercial depois de perfurá-los. A perfuração dos poços vizinhos ao Morpho deve começar no ano que vem, segundo declaração de Sylvia Anjos à Reuters em setembro.
O Ministério Público Federal (MPF) pediu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) que suspenda a licença. Segundo a CartaCapital, de 29 de setembro, o pedido é de decisão urgente, com multa diária de R$ 1 milhão se a perfuração continuar. O MPF argumenta que a licença passou de um poço para quatro sem novos estudos ambientais.
No plano de negócios de 2026 a 2030, a Petrobras prevê investir US$ 2,5 bilhões na Margem Equatorial, faixa do litoral que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. O plano prevê 15 poços no período, segundo a BPMoney. É previsão de investimento, não gasto já feito.
Ressalvas
A descoberta e a qualidade do óleo são declarações da Petrobras. Nenhuma medição independente foi divulgada até 2 de outubro de 2026. A empresa não informou volume, quanto o poço produziria por dia nem o custo de extração.
Quase toda a cobertura do anúncio de outubro reproduz o comunicado da Petrobras. Os dados de contexto vêm de apuração própria da Agência Brasil, da Gazeta do Povo, da eixos e da CartaCapital.
As estimativas da EPE valem para toda a Foz do Amazonas, não para o Morpho. Os dois números chegaram por citação na imprensa, e o estudo original da EPE não foi lido. Os 49 dias entre as duas descobertas são cálculo deste artigo.
Em 4 de janeiro de 2026, o poço vazou 18,44 metros cúbicos de fluido de perfuração no mar, segundo o MPF. A Petrobras disse que o fluido era biodegradável e parou a perfuração por até 15 dias para reparos, segundo a Zacks, empresa americana de análise de ações.
As declarações de setembro sobre a qualidade do óleo chegaram pela Reuters, reproduzida pelo site Juruá em Tempo. O site da Reuters não foi consultado diretamente, porque bloqueia a ferramenta de pesquisa usada neste artigo.