Anthropic afirma ter interrompido rede de sete empresas chinesas que copiavam o Claude
A Anthropic, dona do chatbot Claude, diz ter identificado sete empresas de inteliência artificial da China. Elas usaram a tecnologia da Anthropic para treinar modelos próprios, sem autorização. A prática ocorreu majoritariamente entre maio e julho de 2026. Somou cerca de 190 milhões de trocas de mensagens com o Claude, segundo a Anthropic.
A Anthropic chama a prática de destilação ilícita. As empresas enviavam perguntas ao Claude em escala industrial e coletavam as respostas. Usavam esse material para treinar ou ajustar seus próprios modelos de IA. É um atalho que evita o custo de construir a tecnologia do zero.
"Laboratórios não autorizados desenvolveram métodos sofisticados para contornar nossas defesas e extrair capacidades de modelos de fronteira dos EUA." — Anthropic, no relatório de setembro de 2026
Alibaba soma 151 milhões de trocas, a maior fatia do total, diz Anthropic
A Alibaba foi a responsável pela maior fatia, com 151 milhões de trocas registradas entre maio e julho de 2026, segundo a Anthropic. O volume passou por mais de 3.500 contas fraudulentas e chegou a um pico de quase 3 milhões de trocas por dia. A Anthropic diz que o alvo final era o Qwen, a linha de modelos de IA da própria Alibaba.
Moonshot repassou pedidos de clientes pelo Claude e devolveu a resposta como se fosse própria
A Moonshot AI, dona do assistente Kimi, somou 23 milhões de trocas com o Claude entre maio e julho de 2026, segundo a Anthropic. Dentro desse total, a empresa aponta um episódio concentrado. Quase 300 mil pedidos de clientes foram encaminhados ao Claude em dez dias. A rede usada tinha 5.380 contas fraudulentas.
A Anthropic chama essa técnica de repetição entre sessões — reenviar o mesmo pedido por contas diferentes para escapar da detecção. Nesse episódio, o Claude respondia diretamente aos clientes da Moonshot, que recebiam a resposta como se tivesse saído do Kimi. O alvo, segundo a Anthropic, era o Opus, o modelo mais avançado da própria empresa americana.
DeepSeek, Zhipu e Xiaomi completam a lista, com volumes menores
A DeepSeek somou 12,1 milhões de trocas com o Claude em 14 dias, em julho de 2026, segundo a Anthropic. A Zhipu, dona do assistente Z.ai, registrou 3,4 milhões de trocas por 273 contas, entre junho e julho. A Xiaomi somou 400 mil trocas em vinte dias, entre março e abril.
A Anthropic diz que sete empresas chinesas de IA participaram do esquema, ao todo. Duas delas — a MiniMax e a SenseTime — aparecem citadas nos relatos apurados sem número individual de trocas ou de contas.
Governo chinês diz desconhecer o relatório; nenhuma empresa respondeu às acusações
Procurado pela Reuters, o Ministério das Relações Exteriores da China disse não conhecer o relatório da Anthropic. Defendeu, em nota, que a inteligência artificial deve ser desenvolvida "para o bem". Nenhuma das sete empresas citadas — Alibaba, Moonshot AI, DeepSeek, Zhipu, Xiaomi, MiniMax e SenseTime — respondeu diretamente às acusações até a publicação deste texto.
A Anthropic já havia relatado uma atividade semelhante em fevereiro de 2026, de escala menor, envolvendo DeepSeek, Moonshot AI e MiniMax. Foram cerca de 16 milhões de trocas por 24 mil contas. O relatório de setembro trata de um período posterior e não deve ser somado ao episódio de fevereiro.
Por que o caso interessa a quem investe em inteligência artificial
Um concorrente pode copiar, a custo baixo, uma capacidade que levou bilhões de dólares e anos para ser construída. É o risco que este caso expõe a quem aposta em empresas de IA de fronteira. Para a Anthropic, bloquear esse tipo de acesso é parte da defesa da empresa. Ela considera o desempenho dos próprios modelos sua vantagem competitiva central.
Para as empresas chinesas de IA, o episódio se soma a um cenário de restrição de acesso a chips e modelos ocidentais avançados. Esse cenário já as empurra a buscar atalhos técnicos para reduzir a distância em relação aos concorrentes dos Estados Unidos.
Ressalvas
Todos os números deste texto vêm do relatório de inteligência de ameaças que a própria Anthropic publicou em setembro de 2026. São volumes de troca, contas fraudulentas e período. Não há auditoria independente desses números até a publicação deste texto.
A Anthropic nomeia sete empresas envolvidas. As fontes apuradas trazem números individualizados de trocas e de contas para cinco delas — Alibaba, Moonshot AI, DeepSeek, Zhipu e Xiaomi. Para a MiniMax e a SenseTime, não há dado quantitativo disponível nas fontes consultadas.
Nenhuma das sete empresas citadas respondeu diretamente às acusações até a publicação deste texto. A resposta do governo chinês veio do Ministério das Relações Exteriores, e não de nenhuma das empresas.
Divulgação de conflito de interesse: a Anthropic é citada ao longo deste texto como fonte dos números e como parte central do fato relatado. Ela também é a fabricante da inteligência artificial usada na apuração e na redação deste resumo. Nenhum dado usado neste texto foi obtido diretamente junto à Anthropic, além do que consta no relatório público citado nas referências.