O trimestre

A SpaceX divulgou em 4 de agosto de 2026 seu primeiro balanço como companhia aberta. Receita de US$ 7,81 bilhões no segundo trimestre, alta de 92% sobre os cerca de US$ 4,0 bilhões do mesmo período de 2025, contra consenso FactSet de US$ 6,8 bilhões.

O prejuízo líquido caiu para US$ 541 milhões, ante US$ 1 bilhão um ano antes — e ante os US$ 1,9 bilhão de perda que os analistas projetavam. O prejuízo operacional recuou de US$ 970 milhões para US$ 143 milhões. O EBITDA ajustado somou US$ 3,5 bilhões, alta de 191%. A perda por ação foi de 9 centavos, contra 26 centavos previstos.

Os três segmentos superaram estimativa. Ainda assim, a ação caiu até 8% no pregão estendido.

Três empresas dentro de uma

A estrutura de resultados revela uma companhia que já não é o que o nome sugere.

Conectividade — receita de US$ 4,3 bilhões, alta de 66%, contra US$ 3,83 bilhões esperados. É o único segmento lucrativo: lucro operacional de US$ 1,66 bilhão. O Starlink encerrou o trimestre com 12 milhões de assinantes, o dobro de um ano antes, e a companhia listou acordos de conectividade a bordo com American Airlines, Southwest, Virgin Atlantic, Iberia e Aer Lingus, além da United, primeira a adotar o serviço em 2024.

Inteligência artificial — inclui a xAI, a rede social X e os serviços de nuvem. Receita de US$ 2,56 bilhões, alta de 247%, contra US$ 2,18 bilhões esperados. Prejuízo operacional de US$ 1,26 bilhão.

Espaço — o negócio fundador. Receita de US$ 962 milhões, alta de 29%, contra US$ 835 milhões esperados, e prejuízo operacional de US$ 542 milhões, consumido pelo desenvolvimento do Starship.

Ou seja: o negócio que deu nome à empresa perde dinheiro, o negócio que mais cresce perde mais ainda, e quem sustenta o conjunto é assinatura de banda larga via satélite.

Por que o resultado acima do esperado não convenceu

O mercado não puniu a demonstração de resultado. Puniu o investimento.

O gasto com ativos fixos somou US$ 18,4 bilhões em três meses — contra US$ 10,1 bilhões no trimestre imediatamente anterior e cerca de US$ 13 bilhões que os analistas projetavam. Um salto de 82% em relação ao trimestre anterior e de mais de 40% sobre o esperado.

A composição agrava a leitura: 86% desse capital foi para a divisão de inteligência artificial, exatamente o segmento com o maior prejuízo operacional. Para quem investe, é a diferença entre gastar para colher e gastar para descobrir se há o que colher.

A dinâmica do papel no dia ilustra a virada de humor. A ação subiu cerca de 10% no pregão regular de terça, seu melhor desempenho desde o IPO, e reverteu para queda de até 8% assim que o balanço saiu.

Gadjo Sevilla, analista sênior da Emarketer, resumiu à AFP: “Não acho que as pessoas queiram ouvir promessas sobre os próximos cinco anos ou sobre uma missão a Marte. Todo mundo sabe que isso leva tempo. Elas querem ver como o valor pode ser gerado o mais rápido possível.”

O motor novo: aluguel de capacidade computacional

O que explica o salto de 247% na divisão de IA não é publicidade nem assinatura de chatbot. É locação de capacidade de processamento ociosa.

A Anthropic passou a pagar, em julho, US$ 1,25 bilhão por mês pelo uso do data center Colossus, perto de Memphis, no Tennessee. O Google começará a pagar US$ 920 milhões mensais. A startup Reflection AI também fechou contrato de computação. O diretor financeiro Bret Johnsen projetou US$ 6,7 bilhões adicionais em contratos de locação de computação nos seis meses iniciados em outubro.

A companhia espera que a divisão de IA se torne sua maior fonte de receita já no trimestre encerrado em setembro — o que colocaria o segmento espacial em terceiro lugar dentro da própria SpaceX.

No lado governamental, a diretora de operações Gwynne Shotwell afirmou na teleconferência: “No lado do governo, ganhamos mais de US$ 6 bilhões em contratos nos EUA no segundo trimestre, apoiando grandes programas da Força Espacial que oferecem à nossa nação capacidades críticas de comunicação e sensoriamento, e vemos ainda mais espaço para crescer nesse setor no ano que vem.”

O balanço e o calendário curto

A posição patrimonial é folgada: US$ 100 bilhões em caixa, equivalentes e títulos negociáveis ao fim de junho, ativos totais de US$ 192,8 bilhões e carteira de contratos de US$ 47,5 bilhões. A companhia também emitiu US$ 25 bilhões em notas sênior sem garantia.

O contexto de mercado é menos confortável. O IPO de 16 de junho foi o maior da história — US$ 85,7 bilhões líquidos captados a US$ 135 por ação, avaliação de US$ 1,75 trilhão. O valor de mercado chegou a US$ 2,6 trilhões nos primeiros dias, passando brevemente a Amazon e quase alcançando a Microsoft. Depois disso, caiu de forma contínua: uma falha de ignição de motor do Starship em julho puxou uma sequência de pregões negativos, e a ação fechou terça a pouco mais de US$ 125 — abaixo do preço de emissão.

O próximo evento é imediato: o lockup vence nesta semana e libera mais de US$ 100 bilhões em ações para negociação, segundo a Bloomberg. O free float atual é de cerca de 5%, e analistas apontam que a oferta adicional pode pressionar o papel.

Leitura para investidor

O fato relevante deste balanço não é o crescimento de 92%. É a mudança de categoria.

Em cerca de 18 meses, a SpaceX deixou de ser avaliável como empresa de lançamentos. O caixa vem de assinatura de banda larga, o capital vai para infraestrutura de computação, e o negócio fundador dá prejuízo. Isso desloca os comparáveis: o múltiplo relevante deixa de ser o de aeroespacial e passa a ser o de infraestrutura de nuvem — categoria em que capex pesado é normal, mas só se justifica contra contrato de longo prazo.

Os contratos existem e têm valor declarado: US$ 1,25 bilhão mensais da Anthropic, US$ 920 milhões do Google, US$ 6,7 bilhões projetados a partir de outubro, US$ 47,5 bilhões de carteira total. O que ainda não existe é histórico de execução dessa carteira sob escrutínio de companhia aberta — este é o primeiro trimestre reportado.

A tensão do papel, portanto, não é sobre a qualidade do trimestre. É sobre quanto tempo o mercado concede para que US$ 18,4 bilhões por trimestre se convertam em resultado. (Leitura analítica própria, não atribuída a fonte.)

Nada aqui é recomendação de compra ou venda.

Ressalvas

Divulgação de conflito de interesse. A Anthropic — contraparte de US$ 1,25 bilhão mensais no fato central deste artigo — é a empresa que desenvolveu a inteligência artificial utilizada na pesquisa e na redação deste resumo. O leitor deve considerar essa relação ao avaliar o enquadramento adotado. Nenhum dado foi obtido junto à Anthropic; todos vêm das fontes listadas.

Divergência de consenso. A Quartz atribui ao FactSet a projeção de US$ 6,8 bilhões de receita; outras coberturas citam US$ 6,93 bilhões. Daí a variação entre “superou em cerca de US$ 1 bilhão” e “superou em cerca de US$ 880 milhões”, conforme a casa consultada.

Origem da fonte de entrada. O ponto de partida foi despacho da AFP assinado por Sara Bloomberg, sindicado pelo Yahoo Finance. O Yahoo não é a origem do material.

Dado não verificado diretamente. O valor de mais de US$ 100 bilhões em ações liberadas pelo fim do lockup é atribuído pela Quartz à Bloomberg, veículo que não foi acessado diretamente.

Capex de um trimestre não é tendência. A companhia não divulgou projeção de investimento para 2027. O salto de US$ 10,1 bilhões para US$ 18,4 bilhões pode refletir concentração pontual de desembolsos, e não patamar recorrente.

Primeiro trimestre reportado. Não há série histórica auditada sob regime de companhia aberta para comparação. As variações anuais usam base do período pré-IPO.