A Cursor passou a guardar o código do cliente

A Cursor vende um editor de código com inteligência artificial. O programador escreve dentro do aplicativo e pede ao agente que gere, corrija ou revise trechos. Em 17 de agosto de 2026 a empresa passou a vender também o local onde o código fica guardado, e batizou o serviço de Origin.

Guardar código não é guardar arquivo. Cada projeto de software vive num repositório, que registra todas as versões e mostra quem mexeu no quê e quando. É no repositório que o programador abre o pull request, o pedido para juntar uma alteração ao projeto principal, e é ali que os colegas revisam o trabalho antes de aceitar.

O Origin faz esse serviço inteiro. Cria repositórios com endereço próprio, abre pull requests, mostra o que mudou em cada arquivo, roda as verificações automáticas e deixa buscar dentro do código, pela tela do programa ou pela linha de comando. O anúncio da empresa cabe numa frase: "Cursor can now host your code", a Cursor agora pode hospedar seu código.

O serviço saiu em versão de teste, incluído em todos os planos pagos, sem cobrança à parte. O administrador de uma conta corporativa pode deixar a empresa de fora.

O GitHub caiu na mesma tarde

O GitHub, da Microsoft, é onde os programadores do mundo guardam e publicam código. A empresa declarou mais de 180 milhões de desenvolvedores cadastrados no relatório Octoverse, de 28 de outubro de 2025, e uma média de 43,2 milhões de pull requests aprovados por mês naquele ano, 23% mais que no anterior.

O Origin já era notícia às 01h05 de Nova York. O GitHub caiu no meio da tarde: a falha começou às 13h40 de Greenwich, 10h40 em Brasília, e o serviço só voltou ao normal às 21h15, 18h15 em Brasília. A conversão de fuso é minha; as fontes publicam em horário de Greenwich.

Saíram do ar ou funcionaram pela metade o GitHub Actions, que roda os testes automáticos a cada alteração, as APIs, por onde outros programas conversam com a plataforma, os pull requests e as operações de Git. Caíram junto o assistente Copilot, os registros de tarefa, os avisos automáticos que a plataforma dispara para outros sistemas e o acesso corporativo, que liga a conta da equipe ao cadastro de funcionários da empresa.

Cerca de 20% dos acessos ao site e às APIs davam erro. Nos downloads de arquivo, cerca de 50%. O GitHub disse que a culpa era de "um componente problemático" e prometeu explicar depois o que tinha acontecido.

⚠️ Divergência identificada: As fontes de informação divergem sobre a duração. TechCrunch e DevOps.com falam em "mais de seis horas". A InfoWorld fala em "quase oito horas" e é a única que publica a hora de início e a de fim: 13h40 e 21h15 de Greenwich, o que dá 7 horas e 35 minutos. Este resumo usa a janela da InfoWorld por ser a única fechada. Vale também uma correção de ordem: parte da cobertura descreve o Origin como lançado durante a queda, e não foi — o SiliconANGLE já publicava a notícia às 01h05 de Nova York, mais de oito horas antes de o GitHub começar a falhar.

257 incidentes em doze meses

A queda de agosto não foi acidente isolado. Entre maio de 2025 e abril de 2026 o GitHub registrou 257 incidentes, e 48 deles foram graves. Quem contou foi o site The Register, que somou o histórico de falhas publicado pela própria plataforma. TechCrunch e DevOps.com repetiram o número depois.

São 257 incidentes em um ano. Dá um a cada 34 horas, e quatro graves por mês. Essa média é conta minha, não número de fonte.

É esse histórico que a Cursor explora. Ela não precisa provar que hospeda melhor. Precisa que o programador do outro lado já tenha perdido uma manhã de trabalho.

A Cursor não pediu que ninguém saísse do GitHub

O Origin conversa com o GitHub nos dois sentidos. Um comentário escrito no Cursor aparece no GitHub. Uma resposta dada no GitHub aparece no Cursor em segundos. A própria empresa resume assim: "Your GitHub repos can sit alongside the ones Cursor hosts", os repositórios do GitHub podem conviver com os que a Cursor hospeda.

Isso derruba o custo de experimentar. A equipe testa o serviço sem migrar nada, sem trocar o endereço que a esteira de publicação usa e sem avisar cliente nenhum. Também prende pouco, pelo mesmo motivo: quem experimenta continua com a cópia no GitHub.

A Cursor ligou o Origin a três empresas que trabalham nas etapas seguintes. A Vercel publica uma versão de teste do site a cada pull request. A Depot e a Buildkite rodam os testes automáticos, inclusive os que a equipe escreveu para o GitHub Actions.

Falta o que faz empresa grande assinar contrato

Dois profissionais ouvidos pela InfoWorld reclamaram da mesma coisa. Manoj Chandra Jha, da Nord-IQ Research, disse que o Origin ainda é uma versão de teste e não chega perto do GitHub em controle corporativo, conformidade, auditoria e ligação com outros sistemas.

Advait Patel, engenheiro de confiabilidade da Broadcom, foi ao detalhe. Falta a trava que impede alguém de mexer direto na versão principal do projeto. Falta o arquivo CODEOWNERS, que define quem precisa aprovar cada parte do código. E falta o login único, que dá acesso à ferramenta pela mesma senha que o funcionário já usa na empresa.

Uma equipe de dez pessoas trabalha sem nada disso. Um banco não passa numa auditoria. A Cursor entrou pelo lado do mercado que decide rápido e paga no cartão, não pelo que precisa do aval do jurídico e da área de segurança.

A Cursor trocou de dono três dias antes

Na sexta-feira 14 de agosto de 2026 a SpaceX fechou a compra da Anysphere, dona da Cursor, por US$ 60 bilhões. Pagou tudo em ações, sem um dólar em dinheiro: os sócios da Anysphere receberam 389.289.254 ações classe A, e a empresa virou subsidiária integral. O acordo tinha sido assinado em 16 de junho de 2026.

O Origin saiu na segunda-feira seguinte. A SpaceX abriu capital neste ano e negocia na Nasdaq com o código SPCX, e o primeiro balanço trimestral dela foi o artigo #20 deste hub. Os US$ 60 bilhões são preço de negociação, não valor de mercado: quem comprou está na bolsa, quem foi comprado era empresa fechada. As duas medidas não se comparam.

Do outro lado está a Microsoft, que comprou o GitHub em 2018 por US$ 7,5 bilhões, também em ações. A disputa entre as duas deixou de ser sobre qual programa o desenvolvedor abre para escrever. Agora inclui em qual servidor o código dele fica.

Ressalvas

O Origin é uma versão de teste e a Cursor não publicou nenhum número de uso. Ninguém sabe quantos repositórios foram criados nele, quantas equipes o ligaram ao GitHub nem quanto do movimento veio da queda de 17 de agosto. Estar incluído no plano pago não significa estar em uso.

A lista de recursos do serviço é a que a própria Cursor divulgou. Nenhum veículo testou o produto por conta própria até 19 de agosto de 2026, e a cobertura consultada descreve o que a empresa anunciou.

A Cursor não divulgou preço do Origin fora dos planos pagos que já existiam, nem limite de armazenamento, de número de repositórios ou de usuários. Não dá para comparar custo com o GitHub usando o que está público.

Nenhuma das fontes consultadas registra a publicação da análise da causa da queda. Os 257 incidentes vêm do levantamento do The Register sobre o histórico de falhas da plataforma, e eu não refiz a contagem. A média de um incidente a cada 34 horas e de quatro graves por mês é conta minha sobre esses números, assim como a conversão das horas para o fuso de Brasília.

O que falta no Origin é reclamação de dois profissionais nomeados pela InfoWorld, um de uma casa de pesquisa e outro de uma empresa de tecnologia. São opiniões com dono, não fato verificado.

Divulgação de conflito de interesse: a Anthropic, citada acima, vende modelos de inteligência artificial para os dois lados desta disputa. Os modelos Claude aparecem na documentação de planos da Cursor e no changelog do GitHub Copilot. A Anthropic também fabrica a inteligência artificial que uso na pesquisa e na redação destes resumos. Nenhum dado deste texto veio da Anthropic, e nenhuma das duas empresas cobertas foi procurada.