O racha
Empresas e investidores de inteligência artificial (IA) se dividiram na eleição para o Congresso dos Estados Unidos (EUA), marcada para 3 de novembro de 2026. Eles pagam campanha de candidatos de dois lados que disputam entre si.
Um lado quer a IA desenvolvida mais depressa e regras mais leves, iguais em todo o país. O outro quer regras de segurança mais duras e espaço para cada estado criar as suas.
Os dois lados gastaram cerca de US$ 78,5 milhões com candidatos ao Congresso neste ciclo eleitoral. A conta é da CNBC, que somou os registros da Comissão Eleitoral Federal (FEC), a autoridade eleitoral americana, até 20 de outubro.
Cerca de 74% do dinheiro foi para as primárias, as eleições internas em que cada partido escolhe seu candidato. Nelas, o lado das regras mais leves gastou US$ 26 milhões, e o das regras mais duras, US$ 32,1 milhões.
Na eleição geral, que põe frente a frente os candidatos dos dois partidos, o gasto encolheu. O lado das regras mais leves soma cerca de US$ 8 milhões, e o outro, US$ 6,9 milhões.
Somados, os dois lados passaram de US$ 58,1 milhões nas primárias para US$ 14,9 milhões na eleição geral. É uma queda de cerca de três quartos (cálculo próprio). Outros US$ 5,5 milhões foram para segundos turnos e eleições extraordinárias.
Quem banca cada lado
O lado das regras mais leves gira em torno da Leading the Future, rede de comitês políticos lançada em agosto de 2025. Ela começou com mais de US$ 100 milhões em promessas de doação. Esses comitês, chamados de super PACs, podem gastar sem limite, desde que não combinem nada com os candidatos.
Entre os doadores estão a Andreessen Horowitz, gestora de capital de risco do Vale do Silício, e Greg Brockman, presidente da OpenAI, dona do ChatGPT, com a mulher, Anna. Também aparecem a Perplexity, empresa de busca com IA, e Joe Lonsdale, cofundador da Palantir (PLTR 🇺🇸), empresa de software de análise de dados.
A rede tem um comitê para candidatos democratas, o Think Big, e outro para republicanos, o American Mission. Um dos líderes da rede é Josh Vlasto, que trabalhou na Fairshake, o grupo político das empresas de criptomoedas, na eleição de 2024.
Do lado das regras mais duras está a Anthropic, empresa de IA dona do assistente Claude. Ela doou US$ 20 milhões em fevereiro de 2026 e mais US$ 20 milhões em julho à Public First Action. A entidade, sem fins lucrativos, é comandada pelos ex-deputados Brad Carson, democrata, e Chris Stewart, republicano.
Pelo comunicado da Anthropic, o dinheiro só pode ir para educação e propostas de política pública, e não pode financiar campanha de candidato. Comitês ligados à Public First Action, com dinheiro arrecadado à parte, gastaram milhões nas mesmas causas, segundo a CNBC. O Jobs and Democracy apoia democratas, e o Defending Our Values, republicanos.
Onde os dois lados se enfrentaram
Nas primárias democratas do 12º distrito de Nova York, o Think Big gastou US$ 8,3 milhões contra Alex Bores, deputado estadual autor da lei de Nova York sobre segurança em IA. O Jobs and Democracy gastou cerca de US$ 15 milhões a favor dele.
Os dois comitês somaram US$ 23,3 milhões nessa disputa, cerca de 40% do que os dois lados gastaram em primárias no país inteiro. Bores perdeu para Micah Lasher por 39% a 35%.
No 25º distrito da Flórida, os dois lados apoiaram nas primárias candidatos que agora se enfrentam. O Think Big gastou US$ 310 mil com o democrata Jared Moskowitz. O Defending Our Values gastou cerca de US$ 857 mil com o republicano Scott Singer e US$ 740 mil contra um dos rivais dele no partido.
Nas primárias, o American Mission gastou US$ 616,4 mil com o republicano Jay Feely, no Arizona, e US$ 590,4 mil com o republicano Aaron Flint, em Montana. Na eleição geral, a Guardrails Alliance, do lado das regras mais duras, gastou US$ 412,5 mil contra cada um deles.
O modelo das criptomoedas
O setor de IA tentou repetir o que as empresas de criptomoedas fizeram em 2024. A Fairshake e seus comitês gastaram mais de US$ 130 milhões naquele ciclo, segundo os registros da FEC.
O dinheiro veio sobretudo da corretora de criptomoedas Coinbase (COIN 🇺🇸), da Ripple, empresa de pagamentos com criptomoedas, e da Andreessen Horowitz. Os candidatos apoiados pela Fairshake venceram 53 de 58 disputas, segundo o site especializado CoinDesk, citado pela CNBC.
Em março de 2026, três candidatos republicanos apoiados pelo American Mission com mais de US$ 500 mil cada venceram suas primárias. Foram Jessica Steinmann e Chris Gober, no Texas, e Laurie Buckhout, na Carolina do Norte.
O recuo
O casal Brockman deu US$ 25 milhões à Leading the Future e depois desistiu de doar outros US$ 25 milhões, segundo o The New York Times. Antes disso, funcionários da OpenAI tinham reclamado das táticas do grupo, segundo o site Semafor.
A Meta (META 🇺🇸), dona do Facebook e do Instagram, montou comitês próprios, voltados sobretudo a eleições estaduais. Eles devolveram US$ 25 milhões à empresa neste ano: US$ 22 milhões do American Technology Excellence Project e US$ 3 milhões do comitê da Califórnia. Com isso, o plano de US$ 65 milhões caiu para cerca de US$ 40 milhões, segundo a CNBC.
Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, disse ao site Politico em outubro que algo claramente não está funcionando. Segundo ele, gastar dinheiro em política não vai fazer as pessoas se sentirem melhor em relação à IA.
A queda do gasto coincidiu com a perda de apoio à IA entre os eleitores, segundo a CNBC. Na pesquisa All-America Economic Survey, da própria CNBC, 52% dos eleitores registrados querem que as empresas pausem a IA avançada até o Congresso aprovar regras. Outros 32% preferem seguir em frente.
Na mesma pesquisa, 63% dos eleitores registrados disseram que se oporiam a um data center de IA a menos de 16 quilômetros de casa.
Bruce Freed preside o Center for Political Accountability, entidade apartidária que acompanha o dinheiro das empresas na política. Ele diz que os grupos de IA gastaram muito nas primárias e provavelmente conseguiram o que queriam na maioria das disputas. Para ele, não há desvantagem em reduzir agora. Parte da queda também reflete o número menor de disputas acirradas em novembro, segundo a CNBC.
Ressalvas
A conta da CNBC soma só as despesas independentes, o gasto que os comitês fazem por conta própria a favor ou contra um candidato ao Congresso. Ficam de fora as eleições estaduais e o dinheiro de entidades sem fins lucrativos, como a Public First Action e os comitês estaduais da Meta.
A divisão dos comitês em dois lados é da CNBC, e a lista completa não está no texto da reportagem. Os segundos turnos e eleições extraordinárias somam US$ 5,5 milhões no texto e US$ 5,6 milhões no gráfico da própria CNBC. O total de US$ 78,5 milhões fecha com US$ 5,5 milhões (cálculo próprio).
Com outra base, o The New York Times, citado pela Fast Company em 15 de outubro, chegou a US$ 55,7 milhões a US$ 60 milhões. A conta do jornal soma anúncios e contato com eleitores de grupos ligados a OpenAI, Anthropic e gestoras de capital de risco. O boletim Transformer calculou, em 16 de outubro, cerca de US$ 30 milhões gastos até então pela Leading the Future, com registros da FEC anteriores aos usados pela CNBC.
A CNBC fala em mais de US$ 100 milhões em promessas de doação no lançamento da Leading the Future. A ONG Public Citizen, citada pela Fast Company, conta US$ 75,1 milhões arrecadados neste ciclo.
A reportagem da CNBC não traz declaração da Leading the Future nem da Public First Action. As críticas da reportagem vêm de Sacha Haworth, do Tech Oversight Project, entidade que defende regras mais duras para as grandes empresas de tecnologia.
A ferramenta de pesquisa não conseguiu abrir a reportagem da CNBC nem a da NBC News sobre o mesmo assunto. O texto da CNBC foi lido numa tradução automática para o português. Os nomes de comitês e candidatos seguem a grafia original.
Divulgação de conflito de interesse: a Anthropic, citada neste texto, financia um dos dois lados. Ela doou US$ 40 milhões à Public First Action em 2026, segundo comunicado da própria empresa, e seus funcionários mantêm um comitê político, o AnthropicPAC. A inteligência artificial usada na pesquisa e na redação deste resumo é feita pela Anthropic. Fora o comunicado público da empresa, nenhum dado deste texto foi obtido junto à Anthropic.