O que o capital de risco comprou na Nigéria

Na Nigéria, sacar dinheiro, pagar uma conta ou receber uma transferência costuma ser tarefa que se resolve no balcão de uma mercearia, num quiosque de rua ou numa banca. Quem atende é um agente de pagamento: um comerciante que opera uma maquininha de cartão ligada ao sistema bancário e cobra comissão por cada operação. O Banco Central da Nigéria registrava 2.021.338 desses agentes no primeiro semestre de 2025, dos quais 69.094 entraram na rede no período de referência. São 1.903 pontos de atendimento para cada 100 mil adultos.

A rede não surgiu por conta própria. Foi montada por empresas de tecnologia financeira bancadas por capital de risco. Esse dinheiro compra participação na empresa, em vez de emprestar a ela. Só vira retorno quando o investidor vende a participação. A Moniepoint, sediada em Lagos, levantou mais de 200 milhões de dólares dessa forma. Foram 110 milhões em outubro de 2024, em rodada liderada pela gestora Development Partners International. E 90 milhões em outubro de 2025, em rodada liderada pela LeapFrog Investments.

Quem pôs o dinheiro, e como a economia informal vira receita

Entre os investidores da Moniepoint estão gestoras de capital privado: Development Partners International, LeapFrog Investments, Lightrock, Verod Capital Management e Alder Tree Investments. Estão também empresas do próprio setor, como o Google, pelo Africa Investment Fund, e a Visa, que entrou em janeiro de 2025 com aporte estratégico. E estão instituições públicas de fomento, que investem com mandato de desenvolvimento: a International Finance Corporation, braço do Banco Mundial, a francesa Proparco e a sueca Swedfund.

Parte do dinheiro que digitalizou o comércio informal nigeriano é, portanto, capital público de países ricos, aplicado com objetivo declarado de ampliar o acesso a serviço financeiro. Esse capital tem contrapartida comercial.

A maquininha cobra comissão por operação, e o agente fica com uma parte. A empresa processa o pagamento do comerciante, atividade conhecida no setor como adquirência, e cobra por isso. E vende ao mesmo comerciante conta bancária de negócio, crédito e software de gestão. O comunicado da Moniepoint sobre a entrada no Quênia descreve a oferta nesses termos: pagamentos, banco e crédito na mesma plataforma.

O que terceiros conseguem medir

O NIBSS, sistema de compensação interbancária da Nigéria, publica o movimento das maquininhas. Em 2024 elas processaram 18 trilhões de nairas em 1,5 bilhão de operações. Em 2023 foram 10,7 trilhões em 1,4 bilhão de operações — alta de 69% em valor e de 8% em quantidade. Os terminais instalados passaram de 2,4 milhões para 5,5 milhões no mesmo intervalo, e os registrados, de 3,5 milhões para 7,8 milhões.

O valor médio de cada operação passou de cerca de 7.600 para cerca de 12.000 nairas nesse intervalo, cálculo próprio a partir dos totais do NIBSS. Boa parte dessa diferença é preço, e não uso. O naira se desvalorizou 129% em 2024, para uma média de 1.479 por dólar, segundo levantamento da Intelpoint com dados do Banco Mundial. A inflação nigeriana rondava 32% ao ano em setembro daquele ano.

A EFInA é uma organização nigeriana de pesquisa cujos dados o banco central usa como referência. A pesquisa de acesso a serviços financeiros que ela publicou em 2023 mediu 74% dos adultos com acesso a algum serviço financeiro, e 64% atendidos por instituição formal. Em 2008, os atendidos formalmente eram 24%. A parcela que dependia apenas de arranjos informais, como poupança de grupo e guardadores de dinheiro do bairro, caiu de 14% em 2020 para 10% em 2023.

O banco central informou cobertura de 74% no primeiro semestre de 2025. E registrou que a meta da estratégia nacional de inclusão financeira, de 95% até o fim de 2024, não foi alcançada. A adoção de serviços financeiros digitais entre adultos com conta transacional subiu para 83%, contra 60% em 2020.

O que a empresa declara, e o que ninguém audita

Os números de escala da Moniepoint vêm dela mesma. O comunicado sobre a compra da Sumac Microfinance Bank, no Quênia, fala em mais de 250 bilhões de dólares em pagamentos por ano. E em 20 milhões de negócios e pessoas atendidos por mês. A reportagem da TechCabal sobre o encerramento do produto britânico registra 294 bilhões de dólares em base anualizada para 2025. A empresa é de capital fechado e não publica demonstrações financeiras auditadas, de modo que nenhum desses valores pode ser conferido em balanço.

O MonieWorld era um serviço de envio de dinheiro do Reino Unido para a Nigéria. Para lançá-lo, a Moniepoint constituiu empresa em Londres em fevereiro de 2024 e gastou 1,2 milhão de libras em instalação. Depositou 2,51 milhões de dólares pela compra da Bancom Europe, instituição de moeda eletrônica autorizada pelo regulador britânico. E destinou 7,39 milhões de dólares ao conjunto da operação. Os valores constam de registros societários entregues à Companies House, o órgão de registro de empresas do Reino Unido, e foram apurados pela TechCabal.

O produto foi lançado em abril de 2025. Em agosto de 2026, dezesseis meses depois — contagem própria a partir das duas datas —, a empresa anunciou o encerramento. Disse que redireciona a arquitetura técnica, de capital e operacional para os mercados africanos. Não divulgou volume nem receita do MonieWorld. Informou que o volume mensal transacionado por seus usuários no Reino Unido cresceu 70%, sem dizer de que base parte esse crescimento. O corredor de remessas entre Reino Unido e Nigéria movimentava 2,76 bilhões de libras em 2021.

O corredor formal de remessas recebeu 7,39 milhões de dólares e dezesseis meses. A base de comerciantes da Nigéria e do Quênia ficou com o capital, a tecnologia e a equipe que estavam alocados em Londres.

⚠️ Divergência identificada: As datas da compra da Sumac Microfinance Bank divergem entre as fontes de informação. A TechCabal situa a operação em maio de 2025 e a BusinessDay em maio de 2026, enquanto o comunicado da própria Moniepoint na Business Wire é de 31 de março de 2026 e a Techpoint Africa noticiou a conclusão em 26 de março de 2026. O texto adota a data do comunicado primário. O percentual adquirido, 78%, é o mesmo em todas as versões. A contagem de meses de vida do MonieWorld também diverge: a BusinessDay escreveu catorze meses e a TechCabal, menos de dezoito. Entre abril de 2025, data do lançamento informada pelas duas, e agosto de 2026, data do encerramento, vão dezesseis meses — contagem própria, adotada no texto.

O lado de quem pôs o dinheiro

O retorno em caixa para quem aportou esse capital não apareceu. A Stears, empresa nigeriana de pesquisa e dados, e a Ventures Platform, gestora de capital de risco também nigeriana, publicaram um levantamento em maio de 2026. Nele estão catalogados 181 desinvestimentos verificados de empresas africanas apoiadas por capital de risco entre 2011 e 2026. Desinvestimento é a operação em que o fundo vende sua participação, seja para outra empresa, seja na bolsa, seja de volta para os fundadores. Serviços financeiros respondem por 30% dos casos, mais do que os dois setores seguintes somados. Quatro países concentram 81% dos desinvestimentos com valor divulgado: Nigéria, África do Sul, Egito e Quênia.

O número de operações cresceu sem que o dinheiro aparecesse. Em 2025 foram 67 fusões e aquisições, 72% mais que no ano anterior, e a maior parte foi paga em ações da compradora, sem caixa trocando de mãos. O comprador estrangeiro, que respondia por 56% das operações com valor divulgado em 2020, caiu para 33% em 2025. Cerca de 80% do capital de risco aplicado na África vem de fundos estrangeiros, que respondem a cotistas cujo critério de resultado é dinheiro recebido, não ganho no papel.

"O problema não é haver poucos desinvestimentos. É que as rotas de saída são estreitas e o conjunto de compradores é raso", disse Dotun Olowoporoku, sócio-gestor da Ventures Platform, ao apresentar o levantamento.

A Moniepoint aparece nessa contabilidade do lado de quem compra. Em março de 2026 adquiriu a Orda, empresa nigeriana de software para restaurantes que havia levantado 4,5 milhões de dólares e atendia 1.075 estabelecimentos. O valor não foi divulgado, e por isso não se sabe o que os investidores da Orda receberam.

Onde o modelo encontra teto

A expansão das maquininhas perdeu ritmo. Os terminais registrados chegaram a 8,36 milhões em março de 2025, dos quais 5,9 milhões ativos. O valor transacionado no primeiro trimestre de 2025 passou de 10,5 trilhões de nairas, pelos dados do NIBSS. Em fevereiro de 2026, a BusinessDay descrevia mercado urbano saturado, comissões pressionadas pela concorrência e custo de conformidade em alta. O setor passa da fase de instalar terminais para a de operar o que já está instalado.

A Agusto & Co., agência de classificação de risco nigeriana, apurou 52,3 bilhões de nairas de perdas com fraude em relatório de 2025. Em outubro de 2025, o banco central proibiu que um mesmo agente opere maquininhas de mais de um provedor. A mudança reorganiza a rede de agentes sobre a qual as empresas do setor construíram sua distribuição.

Ressalvas

Os números de escala da Moniepoint são autodeclarados e não passam por auditoria pública. A empresa é de capital fechado e não publica demonstrações financeiras. As duas cifras disponíveis divergem entre si. O comunicado da própria empresa fala em mais de 250 bilhões de dólares por ano; a TechCabal registra 294 bilhões em base anualizada para 2025.

A duração do MonieWorld diverge na cobertura: catorze meses na BusinessDay, menos de dezoito na TechCabal. Pela diferença entre as datas de lançamento e de encerramento que as duas informam, são dezesseis. O texto adota esta última e a marca como contagem própria.

Nem o volume nem a receita do MonieWorld foram divulgados. O crescimento de 70% no volume mensal dos usuários britânicos não vem acompanhado da base de comparação, e por isso não se sabe o que ele representa em dinheiro.

Não existe medição que separe o efeito das empresas de capital de risco do efeito dos bancos, das operadoras de telefonia e dos demais participantes do sistema de pagamentos nigeriano. Os números do NIBSS, da EFInA e do banco central descrevem o mercado inteiro. Os registros públicos permitem afirmar a coincidência de período entre a entrada do capital de risco e o crescimento da rede de agentes. A atribuição de causa, não.

A pesquisa de acesso a serviços financeiros da EFInA usada aqui é a edição de 2023, a mais recente localizada nos registros consultados. O dado de 74% de cobertura informado pelo banco central para o primeiro semestre de 2025 vem de metodologia própria da autoridade monetária. Ele não é diretamente comparável ao da pesquisa.

O valor do aporte da Visa não foi divulgado pelas duas empresas. Parte da cobertura noticiou 10 milhões de dólares, cifra que nem a Visa nem a Moniepoint confirmaram, e a reportagem da TechCrunch sobre o aporte não a informa.

O relatório sobre a economia informal publicado pela própria Moniepoint não foi usado como base de nenhum número deste texto, por ser levantamento da empresa que é objeto do artigo.

O texto integral da reportagem sobre a proibição do modelo de múltiplos provedores não foi devolvido pela ferramenta de leitura. A data de vigência da norma e o seu alcance sobre os agentes já cadastrados não foram conferidos. Reuters, Investors.com e Seeking Alpha estão confirmados como inacessíveis pela ferramenta e não foram consultados.