Proibições avançam pelo país
Mais de 500 cidades e condados dos Estados Unidos já proibiram ou suspenderam a construção de data center de inteligência artificial. O dado é do site de notícias de tecnologia The Information, que cruzou documentos legais e reportagens locais. O número era de cerca de 300 no fim de junho de 2026. Passou de 500 em julho — um salto de quase 70% em poucas semanas. E seguia acima desse patamar no fim de agosto.
Em 18 de julho, opositores organizaram um dia nacional de protesto. Foram 142 manifestações em 42 estados, segundo a Reuters. As proibições atingem estados democratas e republicanos. Não há padrão partidário único.
O que dizem quatro pesquisas independentes
Quatro pesquisas nacionais feitas em 2026 convergem num ponto. A razão da oposição não é rejeição à inteligência artificial.
O instituto Gallup entrevistou 1.000 adultos entre 2 e 18 de março. A margem de erro foi de 4 pontos percentuais. Sete em cada dez americanos disseram se opor a um data center perto de casa. Um levantamento seguinte, em abril, ouviu 1.561 desses opositores. Metade citou o uso de água ou energia como motivo. Um em cada cinco citou o aumento da conta de luz. Apenas 14% mencionaram alguma preocupação específica com inteligência artificial.
A Fox News chegou a resultado parecido. A pesquisa foi feita por Beacon Research e Shaw & Company — a dupla de institutos que a emissora usa para dar equilíbrio partidário às pesquisas, um ligado a democratas e outro a republicanos. Foram 1.003 eleitores registrados ouvidos entre 17 e 20 de julho. A margem de erro foi de 3 pontos. O resultado: 70% de oposição, uma diferença de 40 pontos sobre o apoio. Metade dos opositores citou impacto ambiental local como razão principal. A divisão não segue linha partidária limpa. Entre republicanos ligados ao movimento MAGA, de apoio a Donald Trump, 46% ainda apoiam a construção de data center. Entre mulheres brancas com diploma universitário, a oposição chega a 84%.
A Heatmap Pro contratou o instituto Embold Research. A pesquisa ouviu 2.045 eleitores registrados entre 8 e 13 de agosto. A margem de erro foi de 2,3 pontos. O resultado: 75% se opõem. Em maio, a oposição era de 70%. Um ano antes, em agosto de 2025, havia empate técnico — 43% a 42%. Já a pesquisa do instituto Echelon Insights, em junho, testou a reação direta a um projeto. Eleitores rejeitaram a construção de um data center de inteligência artificial na própria comunidade por 62% a 27%. A oposição resistiu mesmo depois de os entrevistados ouvirem argumentos favoráveis ao projeto. Caiu apenas para 58% a 31%.
A conta que motiva a oposição
Na região administrada pela PJM Interconnection, o preço da energia subiu 76% no primeiro trimestre de 2026. A PJM é a maior operadora de rede elétrica dos Estados Unidos, com cerca de 65 milhões de pessoas atendidas em 13 estados e no Distrito de Columbia. O preço da capacidade foi de US$ 77,78 para US$ 136,53 por megawatt-hora, ante o mesmo período de 2025. O dado é da Monitoring Analytics, monitor independente do mercado da PJM. A alta é atribuída à demanda crescente de data center. Ela deve repassar cerca de US$ 13 bilhões em custos adicionais aos consumidores da região, segundo o mesmo monitor.
Em Oregon, o regulador estadual aprovou uma tarifa maior para data center em 7 de julho. A decisão veio da Comissão de Utilidade Pública do estado, a OPUC. Foi a primeira aplicação da lei POWER Act, de 2025. A lei criou uma faixa de tarifa própria para consumidores de grande porte, acima de 20 megawatts. Pela decisão, a distribuidora Portland General Electric (PGE) aumenta em 29,7% a tarifa cobrada de data center. Em troca, reduz em 1,3% a tarifa residencial — economia média de US$ 1,91 por mês para a casa. "Essas mudanças garantem que os custos gerados pelos data center no território da PGE se reflitam de forma mais precisa nas tarifas deles", disse Letha Tawney, presidente da comissão. A governadora Tina Kotek chamou a decisão de vitória para os moradores do estado.
O tamanho do problema para o setor
A empresa de pesquisa Data Center Watch contabilizou ao menos 75 projetos atrasados ou cancelados no primeiro trimestre de 2026, por causa de oposição local. O valor conjunto, de cerca de US$ 130 bilhões, é a maior concentração de bloqueios num único trimestre já registrada pela empresa. Em todo o ano de 2025, ela contou US$ 156 bilhões em projetos afetados. A revista Newsweek consultou a Data Center Watch e o Information Technology Industry Council, entidade que representa empresas de tecnologia. Nenhuma das duas respondeu ao pedido de comentário.
Em Hill County, no Texas, o governo local aprovou moratória de um ano para novos data center. A incorporadora do projeto local processou o município. A moratória foi revogada. Segundo a revista de tecnologia TechRadar, empresas de inteligência privada passaram a vender dossiês sobre opositores de data center a clientes do setor. É sinal de que a disputa por terrenos deixou de se resolver só em audiência pública.
Em Cheyenne, no Wyoming, a companhia de água da cidade identificou contaminação no sistema de água de reúso em fevereiro de 2026. A bactéria era rara: a Cupriavidus gilardii, encontrada naturalmente em água e solo. A contaminação foi rastreada até obras de um data center da Meta. As obras eram conduzidas por uma contratada, a Fortis. A cidade suspendeu a irrigação com água reciclada. Classificou o caso como descumprimento significativo de norma federal de pré-tratamento de efluentes. Um porta-voz da Meta disse que a Fortis parou imediatamente os despejos de água residual industrial. A empresa passou a transportar a água para fora do local.
Ressalvas
Andy Masley é o pesquisador cuja análise das quatro pesquisas motivou a cobertura original da Tom's Hardware. Ele é ligado à comunidade de efetivismo eficaz (effective altruism). Escreve com frequência defendendo que os impactos ambientais da inteligência artificial são menores do que a percepção pública. Essa posição faz dele parte interessada na leitura de que a oposição "não é sobre IA". Isso não invalida os números. Eles vêm de institutos de pesquisa independentes: Gallup, a dupla Beacon Research/Shaw & Company usada pela Fox News, Embold Research e Echelon Insights. Podem ser conferidos nas fontes originais, listadas nas referências.
A notícia do dia nacional de protesto tem como fonte original a Reuters. A reportagem está bloqueada para esta ferramenta de pesquisa. Os números — 142 manifestações em 42 estados — foram confirmados de forma independente por US News, Yahoo News e Daily Signal.
A Data Center Watch não publicou a metodologia exata do relatório do primeiro trimestre de 2026. Não é possível conferir como a empresa define um projeto "atrasado ou cancelado". O valor de US$ 130 bilhões é o divulgado por ela. A apuração não localizou contestação a esse número até o fechamento deste texto.
A alta de 76% e os US$ 13 bilhões atribuídos à PJM referem-se ao preço no mercado atacadista de capacidade de energia. Não é a conta final de cada consumidor, que depende também de outros componentes de tarifa.