Exportação deve somar 1,535 milhão de m³, alta de 20%

As exportações brasileiras de etanol devem somar 1,535 milhão de m³ na safra 2026/27. O volume representa alta de 20% sobre o ciclo anterior. O Brasil exportou 1,28 milhão de m³ de etanol na safra 2025/26. O dado é do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A projeção de 1,535 milhão de m³ é a mediana de uma pesquisa da consultoria Argus com participantes do mercado. O levantamento foi divulgado em agosto de 2026.

Entre abril e junho, primeiro trimestre da nova temporada, os embarques somaram 168.742 m³. O início foi considerado fraco para as vendas externas. Em julho, outros 178.480 m³ deixaram o país. Ainda faltam cerca de 1,18 milhão de m³ a embarcar entre agosto de 2026 e março de 2027. É o volume necessário para que a projeção da Argus se confirme.

Produtores e exportadores já fecharam negócios com a Índia, a Nigéria, as Filipinas, a Coreia do Sul e países europeus. Os embarques devem se concentrar entre julho e setembro. Agências marítimas projetavam cargas de até 220 mil m³ de etanol somente em agosto. O volume ajudou a formar filas nos portos do Sudeste.

⚠️ Divergência identificada: Nem toda consultoria projeta o mesmo salto. Em maio de 2026, a Datagro projetou exportações brasileiras de etanol de 2,2 bilhões de litros para 2026/27, segundo reportagem da Reuters. O volume equivale a 2,2 milhões de m³, acima do 1,535 milhão de m³ estimado pela Argus. A base de comparação também diverge. A Datagro citou exportações de 1 bilhão de litros em 2025/26. O MDIC registrou 1,28 bilhão de litros no mesmo período. As duas consultorias não detalham publicamente a metodologia, o que impede comparar as premissas por trás dos números.

Frete mais caro pesou contra o Brasil

Os custos de transporte marítimo tiveram papel importante na competitividade do etanol brasileiro no primeiro semestre de 2026. Segundo Maria Ligia Barros, responsável pela precificação de etanol da Argus, o frete mais caro pesou contra o Brasil. A causa foi a guerra entre Estados Unidos e Irã, que encareceu o transporte marítimo. O etanol brasileiro ficou menos competitivo que o americano nesse período. O efeito foi maior em mercados próximos dos Estados Unidos, como a Europa.

“Sim, principalmente os custos de transporte marítimo. O frete mais caro na esteira da guerra entre Estados Unidos e Irã tornou o etanol brasileiro menos atrativo que o dos EUA no primeiro semestre para compradores em mercados mais próximos da América do Norte, como a Europa”, afirmou a analista.

O etanol americano costuma ganhar competitividade entre outubro e março. É o período mais frio no Hemisfério Norte, quando o consumo de combustíveis cai. O intervalo coincide com a entressafra da cana-de-açúcar no Centro-Sul, a principal região produtora do país. Nessa época, os preços domésticos do etanol tendem a subir. Julho e setembro formam uma janela em que o etanol brasileiro ainda compete bem. Depois, o produto americano recupera vantagem.

Oferta em recorde ajuda a sustentar a alta

A maior movimentação das exportações ocorre numa safra de forte expansão da oferta. Segundo pesquisa da Argus, a produção de etanol no Centro-Sul deve somar 38 milhões de m³ em 2026/27. A pesquisa ouviu as principais empresas do setor. O volume é 12,7% superior ao da temporada anterior.

Para o país inteiro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 40,68 milhões de m³ nesta safra, o maior volume da sua série histórica de 21 anos, se a projeção se confirmar. Entre os fatores da expansão estão o crescimento do etanol de milho e a recuperação dos canaviais. A lavoura ainda se recupera da seca de 2024.

Apesar da alta esperada nas exportações, a Argus avalia que a oferta deve ser suficiente também para o mercado interno. “A oferta nesta safra deve ser suficiente para atender o mercado doméstico e o externo. Caso o consumo interno venha mais forte que o esperado em 2026/27, o Brasil pode reduzir os volumes a serem exportados e direcioná-los ao mercado doméstico”, afirmou Maria Ligia Barros, da Argus.

A analista também observa o etanol anidro, o tipo misturado à gasolina, ganhando espaço nos embarques. Mais países ampliam a mistura obrigatória de etanol à gasolina, sobretudo na Ásia. Para ela, o crescimento das exportações em 2026/27 faz parte de uma tendência de mais longo prazo. É uma forma de escoar o superávit de oferta projetado para os próximos anos no Brasil.

Preço recupera, mas frete pode limitar nova oportunidade

A janela de exportação também se abriu depois de um período de forte pressão sobre os preços domésticos. O etanol hidratado, usado puro nos carros flex, foi negociado direto na usina, na região de Ribeirão Preto (SP). O preço chegou a R$ 2.513 por m³ em 28 de julho, o menor nível desde 12 de março de 2024.

Desde então, a cotação recuperou R$ 230 por m³, cálculo próprio a partir dos dois valores citados pela Argus. O preço chegou a R$ 2.743 por m³ em 13 de agosto. Parte dos agentes de mercado consultados pela Argus vê poucas chances de uma nova janela assim. Para eles, dificilmente ela se repete até o fim da safra.

A curva futura de Chicago, referência para o etanol americano, precifica queda nas cotações até março de 2027, com recuperação a partir de abril. Já os contratos futuros de etanol hidratado brasileiro, negociados na B3, a bolsa de valores brasileira, indicam outra direção. Os preços devem subir entre setembro de 2026 e janeiro de 2027. Nos cenários mais pessimistas, parte dos participantes ouvidos pela Argus trabalha com exportações de cerca de 1,4 milhão de m³. Esse cenário depende de produção abaixo do esperado ou de demanda internacional menor.

Ressalvas

A projeção de 1,535 milhão de m³ para as exportações de 2026/27 é a mediana de uma pesquisa da Argus. A consultoria ouviu participantes de mercado, mas não identifica publicamente quais empresas foram consultadas nem o tamanho da amostra.

A leitura sobre o efeito do frete mais caro no primeiro semestre é de Maria Ligia Barros. Ela é analista da Argus. Esta apuração não localizou medição independente de custos de frete que confirme o efeito no mesmo período.

As agências marítimas que projetavam cargas de até 220 mil m³ em agosto não são identificadas pela fonte original.

Há divergência de projeção entre consultorias para o volume de exportação de 2026/27, descrita acima. Argus e Datagro não publicam a metodologia completa de apuração, o que impede comparar diretamente as duas premissas.

O cálculo de recuperação de R$ 230 por m³ no preço do etanol hidratado é elaboração própria. Ele parte de dois valores citados pela Argus: R$ 2.513 em 28 de julho e R$ 2.743 em 13 de agosto.