Seis em cada dez reais da carteira são crédito de um fundo público

O governo federal promete R$ 160 bilhões para portos, aeroportos e hidrovias de 2027 a 2030. Mais da metade, porém, não é obra contratada: é crédito que um fundo público pode emprestar. O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, apresentou a carteira em 8 de outubro de 2026, no Fórum Brasil Export, em Brasília.

O Fundo da Marinha Mercante, abastecido por uma taxa sobre o frete de navios, responde por R$ 95 bilhões, cerca de 59% do total (cálculo próprio). São R$ 60 bilhões para a construção de navios e R$ 35 bilhões para obras em portos.

A prioridade dada pelo conselho do fundo não garante o empréstimo. Cada pedido passa pelo BNDES, banco federal de desenvolvimento que opera o fundo, que analisa o projeto, negocia as condições e decide se empresta.

O Orçamento federal entra com R$ 9,75 bilhões, cerca de 6% da carteira (cálculo próprio): R$ 2,15 bilhões para 18 obras em portos e R$ 7,6 bilhões para hidrovias. Só a ampliação do terminal hidroviário de Manaus leva R$ 964 milhões.

Leilões de portos somam R$ 20,6 bilhões, e terminais privados, R$ 33,1 bilhões

O ministério prevê 34 leilões de áreas em portos públicos até 2030, com R$ 20,6 bilhões em investimentos estimados. Quem vence o leilão ganha o direito de operar um terminal e se compromete a investir nele.

Cinco projetos somam R$ 16,1 bilhões, 78% do valor dos leilões (cálculo próprio). O maior deles, o terminal de contêineres Tecon Santos 10, no Porto de Santos (SP), prevê R$ 6,45 bilhões. Seguem áreas em São Sebastião (SP), com R$ 3,84 bilhões, e em Itajaí (SC), com R$ 2,66 bilhões. Em Vila do Conde (PA), a previsão é de R$ 1,93 bilhão; em Itaqui (MA), de R$ 1,22 bilhão.

De 2023 a 2026, o ministério diz ter feito 29 leilões de portos, com R$ 15,68 bilhões em investimentos. A carteira nova prevê cinco leilões e R$ 4,92 bilhões a mais (cálculo próprio). A comparação, porém, põe lado a lado leilões já feitos e leilões ainda no papel.

Outros R$ 33,1 bilhões viriam de 70 terminais privados, erguidos fora dos portos públicos com autorização do governo, sem leilão. Nesse caso, é a empresa que decide investir e pede a autorização. O Sudeste concentra R$ 14,64 bilhões, e o Sul, R$ 7,33 bilhões. O Norte soma R$ 6,78 bilhões, e o Nordeste, R$ 4,3 bilhões.

Nas hidrovias, o ministério prepara concessões nos rios São Francisco, Paraguai, Madeira e Tocantins, na Hidrovia Verde e na Lagoa Mirim. A meta é fazer até seis delas em 2027, segundo o Poder360. Nenhuma das reportagens traz o investimento previsto nessas concessões.

Nos aeroportos, nenhuma concessão nova

A carteira não traz nenhuma concessão nova de aeroporto, segundo a CNN Brasil. O próprio ministro, de acordo com o Poder360, disse que não há novidade em relação aos projetos já anunciados.

Duas concessões em vigor estão sendo renegociadas. A de Viracopos, em Campinas (SP), prevê R$ 1,5 bilhão em investimentos e está em negociação desde 2020. A do Aeroporto de Brasília inclui outros dez aeroportos e R$ 857,8 milhões.

Há ainda R$ 2 bilhões em obras, estudos e projetos em 59 aeroportos regionais. Outros R$ 6,07 bilhões já foram aprovados para hotéis, centros logísticos, escolas e hospitais em áreas de aeroportos. A CNN Brasil registra também R$ 7,1 bilhões em crédito adicional do Fundo Nacional de Aviação Civil.

Os leilões previstos caem no mandato seguinte

A carteira cobre de 2027 a 2030 e foi lançada a menos de três meses do fim do mandato atual, segundo o Poder360. Quem vai fazer os leilões e as concessões e liberar o crédito é o governo eleito em 2026.

Dos cerca de R$ 160 bilhões anunciados, R$ 95 bilhões são crédito ainda por contratar, e R$ 20,6 bilhões, leilões de portos ainda por fazer.

Ressalvas

Todos os valores são estimativas do Ministério de Portos e Aeroportos, sem auditoria nem conferência independente. Investimento previsto em leilão ou em terminal privado só se concretiza se uma empresa vencer o leilão ou pedir a autorização, e depois fizer a obra.

A composição oficial da carteira não foi consultada: a ferramenta de leitura não concluiu o acesso ao site do ministério. Os números vêm da Reuters, da CNN Brasil e do Poder360.

Somados, os itens publicados pela CNN Brasil dão cerca de R$ 73,9 bilhões sem o Fundo da Marinha Mercante e R$ 168,9 bilhões com ele (cálculo próprio). Nenhuma das duas somas bate com o total anunciado, e nenhuma reportagem explica a diferença.

Crédito priorizado pelo conselho do fundo não é crédito contratado, nem dinheiro liberado.

Os 29 leilões de 2023 a 2026 já foram feitos. Os 34 previstos para 2027 a 2030 ainda são plano.

⚠️ Divergência identificada: Total da carteira: a Reuters e a CNN Brasil falam em cerca de R$ 160 bilhões; o Poder360, em até R$ 161,5 bilhões. As três se referem à mesma carteira e ao mesmo período, de 2027 a 2030, e nenhuma explica a diferença.