US$ 10 bilhões em dez anos, e quase nada definido

A Micron Technology anunciou em 20 de agosto de 2026 a criação do Micron Research Labs, centro de pesquisa com sede em Boise, no estado americano de Idaho. A empresa informou que vai investir US$ 10 bilhões no projeto ao longo de dez anos. As obras começam em 2027, e o centro deve empregar centenas de pesquisadores.

A Micron não divulgou o endereço do terreno, o tamanho do prédio, o custo da construção nem a data de conclusão. Não há projetista nem construtora contratados, segundo a Engineering News-Record, publicação americana especializada em obras de grande porte.

O laboratório custa pouco mais de um terço do lucro de um trimestre

No trimestre encerrado em 28 de maio de 2026, a Micron faturou US$ 41,46 bilhões e lucrou US$ 28,24 bilhões pelo critério contábil GAAP, o padrão obrigatório nos Estados Unidos. A receita subiu 345,6% contra o mesmo trimestre do ano anterior e 73,6% contra os três meses imediatamente anteriores. A margem bruta ficou em 84,6%. Os números estão no resultado do terceiro trimestre do ano fiscal de 2026, arquivado na SEC, a comissão de valores mobiliários americana.

A operação gerou US$ 25,39 bilhões de caixa no trimestre. Para o trimestre seguinte, a empresa projeta receita de US$ 50 bilhões, com margem de US$ 1 bilhão para mais ou para menos.

Os US$ 10 bilhões do laboratório equivalem a pouco mais de um terço do lucro daquele único trimestre. A conta é derivada dos dois números divulgados e não aparece em documento nenhum da companhia. Diluída em dez anos, dá cerca de US$ 1 bilhão por ano, contra os US$ 3,737 bilhões que a Micron gastou em pesquisa e desenvolvimento apenas nos nove primeiros meses deste ano fiscal.

Por fora dos US$ 250 bilhões, e ainda não desembolsado

Em junho de 2025, a Micron e o governo americano anunciaram cerca de US$ 200 bilhões em fábricas e pesquisa nos Estados Unidos, divididos em US$ 150 bilhões para produção e US$ 50 bilhões para pesquisa e desenvolvimento. Em 9 de julho de 2026, a empresa elevou o total para US$ 250 bilhões até 2035. Os US$ 10 bilhões do Micron Research Labs vêm por fora desse programa, como disse o presidente-executivo Sanjay Mehrotra no comunicado e confirmou a Engineering News-Record.

Compromisso plurianual não é desembolso. O que a Micron anunciou é intenção de gasto com prazo de dez anos. O que já saiu do caixa está no balanço: US$ 19,6 bilhões em investimento de capital nos nove primeiros meses do ano fiscal, dos quais US$ 7,1 bilhões no último trimestre.

O programa de manufatura recebeu dinheiro público; o laboratório, não. Os US$ 6,4 bilhões de subsídio do CHIPS Act, a lei americana de 2022 que financia fábricas de semicondutores em solo nacional, e o crédito fiscal para investimento em manufatura avançada, o AMIC, foram concedidos à expansão industrial.

Duas fábricas em obra, e um centro de treinamento aberto em 24 de agosto

Boise abriga hoje duas fábricas em construção. A ID1 tem 1,2 milhão de pés quadrados, dos quais 600 mil de sala limpa, o ambiente com controle de partículas onde os chips são fabricados. A primeira produção está prevista para meados de 2027. A ID2 deve ficar pronta no fim de 2028. O centro de pesquisa que a empresa já mantém na cidade tem cerca de 250 mil pés quadrados de sala limpa.

A Exyte, gerente de construção da ID1, fechou um pacote de US$ 220 milhões para as instalações mecânicas, elétricas e hidráulicas do prédio de sondagem, e outro de US$ 149 milhões para as treliças que sustentam as utilidades. São os valores que dão a ordem de grandeza da obra.

Quatro dias depois do anúncio do laboratório, em 24 de agosto, a Micron inaugurou em Boise um centro de treinamento de 60 mil pés quadrados, com espaço para até 20 equipamentos de processo. A empresa e o Departamento de Comércio dos Estados Unidos destinaram US$ 3 milhões ao College of Western Idaho, faculdade pública local que forma operadores de fábrica.

A pesquisa aponta para a montagem do chip

O Micron Research Labs vai trabalhar em tecnologias que estão fora dos planos de produto atuais da empresa. A lista divulgada inclui memória, arquiteturas de computação, encapsulamento e processos de fabricação.

Encapsulamento é a etapa em que o chip pronto é montado, conectado e protegido antes de seguir para o equipamento final. Ganhou peso porque a memória de alta largura de banda, a HBM que alimenta os aceleradores de inteligência artificial, é feita empilhando pastilhas de DRAM umas sobre as outras. A DRAM é a memória de trabalho do computador, apagada quando falta energia, e sustenta o negócio da Micron junto com a NAND, que guarda os dados. Na leitura do Tom's Hardware, site americano especializado em hardware, o laboratório foi apresentado para pesquisar o que vem depois dessas duas.

O centro terá laboratórios satélites e parcerias fora dos Estados Unidos. O comunicado cita pesquisa na Europa, no Japão, na Índia, em Singapura e em Taiwan. Entre os parceiros nomeados estão a Nvidia, a Apple, as fabricantes de equipamento Applied Materials e Lam Research, a Universidade Stanford, a Universidade do Texas em Austin e o imec, centro belga de pesquisa em microeletrônica.

Quanto Boise já recebeu: US$ 50 bilhões ou mais de US$ 60 bilhões

O total já comprometido com Boise aparece em duas medidas diferentes na cobertura, e nenhuma delas entrou nas contas deste resumo.

⚠️ Divergência identificada: A CNBC, no título da reportagem que deu entrada neste resumo, e o site americano de finanças 24/7 Wall St. falam em US$ 50 bilhões, somando as duas fábricas em construção. A BoiseDev, publicação jornalística local de Boise, fala em mais de US$ 60 bilhões, somando também outros projetos anunciados na cidade. A Micron não divulgou número consolidado para Idaho, e a Engineering News-Record registra que não existe total público.

Ressalvas

Os US$ 10 bilhões do laboratório, os US$ 250 bilhões do programa americano e os mais de 90 mil empregos são números declarados pela Micron e não auditados. São compromisso de gasto futuro e estimativa de emprego que soma diretos e indiretos, sem abertura entre as duas categorias.

O que está auditado é o balanço. Receita, lucro, margem, caixa e investimento de capital vêm do resultado do terceiro trimestre do ano fiscal de 2026, arquivado na SEC em 24 de junho de 2026.

A reportagem da CNBC que originou este resumo devolve erro de acesso à ferramenta de coleta e não foi lida. Nenhum fato do texto vem dela, e não foi possível conferir se ela traz aviso de conteúdo pago. Título e data são conhecidos pela listagem de busca.

A maior parte da cobertura de 20 de agosto decorre do mesmo comunicado da Micron, distribuído pelo GlobeNewswire, serviço de divulgação de comunicados corporativos. O comunicado é documento público, conferível por qualquer um. Duas publicações trouxeram apuração própria: a Engineering News-Record, com os contratos de construção e as metragens, e a BoiseDev, com o contexto local.

O laboratório não tem terreno definido, tamanho, custo de construção, cronograma de conclusão, projetista nem construtora, e nenhuma parte do investimento foi desembolsada.