O evento

Em 29 de julho de 2026, as ações da Berkshire Hathaway atingiram máxima de 8 meses. A BRK.B fechou em US$ 512,37 — maior valor desde 28 de novembro de 2025 (US$ 513,81). A BRK.A chegou a US$ 768.010. No fechamento de 1º de agosto, BRK.B estava em US$ 511,54 e BRK.A em US$ 766.600. Capitalização de mercado: US$ 1,10 trilhão. P/L TTM: 15,23x. As ações ficam 5,2% abaixo da máxima histórica de US$ 539,80, atingida em 2 de maio de 2025 — um dia antes de Warren Buffett anunciar que deixaria o cargo de CEO ao fim daquele ano. O dado mais relevante é o ritmo da recuperação relativa: a Berkshire havia acumulado uma defasagem de 17,5 pontos percentuais frente ao S&P 500 dois meses antes e já apagou mais da metade, reduzindo o gap para 7,6 pp. O analista Brian Meredith, da UBS, elevou o preço-alvo da BRK.B para US$ 585 (de US$ 570) e da BRK.A para US$ 877.848, mantendo recomendação de compra.

A transição: de Buffett para Abel

Greg Abel assumiu como CEO da Berkshire Hathaway em janeiro de 2026. Warren Buffett permanece como Chairman do conselho; Ajit Jain segue como Vice-Presidente de Operações de Seguros. Abel naturalizou-se cidadão americano em junho de 2026. Antes da sucessão, liderava a Berkshire Hathaway Energy e era vice-presidente de Operações não relacionadas a Seguros. A passagem de bastão foi a maior aposta concentrada de sucessão corporativa da história americana recente: uma empresa de US$ 1 trilhão de capitalização, com subsidiárias que vão de seguros a ferrovias, energia e joalherias, passou de um gestor considerado o melhor alocador de capital do século XX para um executivo operacional. Os primeiros números sugerem adaptação mais fluida do que se temia.

Q1 2026: os primeiros números sob Abel

O primeiro trimestre completo de Abel como CEO foi divulgado em maio de 2026 com base no Form 10-Q arquivado na SEC. Lucro líquido: US$ 10,1 bilhões (vs. US$ 4,6 bilhões no Q1 2025 — comparação distorcida por sinistros das queimadas na Califórnia no período anterior). Operating earnings: +17,7% A/A (métrica preferida, que exclui a volatilidade de marcação a mercado). Excluindo ganhos cambiais sobre dívida em moeda estrangeira, o crescimento cai para +7,2% A/A — taxa mais representativa da operação subjacente. Seguros: GEICO com combined ratio de 87,3%; float de seguros de US$ 176,9 bilhões. BNSF (ferrovias): operating earnings +13,4%; avançou para a 4ª posição entre as 6 maiores em margem operacional. BHE (energia): after-tax operating earnings +1,3% A/A; vendeu operações no estado de Washington por US$ 1,9 bilhão (fechamento previsto para 2027) em resposta ao contencioso PacifiCorp. Precision Castparts (manufatura aeroespacial): +32,9% em lucro pré-imposto. Caixa: US$ 397,4 bilhões (recorde histórico; equivale a 31,7% do tamanho total da empresa). Valor ajustado excluindo T-bills a pagar: US$ 380,2 bilhões.
⚠️ Divergência identificada: O operating earnings de +17,7% inclui tailwind cambial significativo sobre dívida denominada em libras, euros e ienes. A taxa orgânica mais comparável é +7,2% (excluindo FX). Abel não forneceu guidance, e a Forbes aponta que ventos contrários em seguros e possíveis pressões de preços deverão limitar o crescimento de operating earnings no ano a um dígito baixo.

Alocação de capital sob Abel

Recompras: no Q1 2026, a Berkshire recomprou US$ 234 milhões de suas próprias ações — primeiro buyback em 21 meses, após 6 trimestres consecutivos sem recompras. Realizado em torno de 1,4x o valor patrimonial. Abel declarou: 'Recompraremos ações da Berkshire quando negociadas abaixo de nossa estimativa de valor intrínseco, determinada de forma conservadora.' No Q2, Barron's e Motley Fool estimam até US$ 11 bilhões em recompras, inferidos da redução de aproximadamente 11.000 ações Classe A nos arquivos SEC entre abril e julho. O valor real será divulgado nos resultados do Q2 em 8 de agosto. Aquisições: a Berkshire adquiriu a OxyChem (divisão química da Occidental Petroleum) por US$ 9,7 bilhões no Q1 — maior produtora de cloro-soda dos EUA. Alphabet: Abel investiu aproximadamente US$ 13 bilhões adicionais na Alphabet no Q1 e negociou uma colocação privada de US$ 10 bilhões em junho de 2026 (28,6 milhões de ações, classes A e C). Total de investimento em Alphabet em 2026: ~US$ 23 bilhões; posição total estimada em ~US$ 29 bilhões.
⚠️ Divergência identificada: Os US$ 11 bilhões em recompras no Q2 são estimativa inferida de arquivos SEC pela Barron's e Motley Fool — não confirmada pela Berkshire. A posição total na Alphabet (~US$ 29 bilhões) é estimativa com base em compras divulgadas e cotações correntes; a posição exata constará no 13F do Q2 (publicação em setembro de 2026).

Carteira de participações e o que observar

As três maiores posições divulgadas contribuíram para a alta das ações: Apple (+13,6% no ano, mais de US$ 70 bilhões), Coca-Cola (+25% no ano, US$ 35 bilhões) e Bank of America (+12,6% no ano, ~US$ 32 bilhões). Quantidades de ações baseadas no 13F de maio de 2026. A Berkshire foi vendedora líquida de ações por 14 trimestres consecutivos — o que torna a expansão expressiva na Alphabet um ponto de inflexão notável. Os resultados do Q2 2026, esperados para 8 de agosto, trarão: (1) o valor efetivo das recompras; (2) evolução do operating earnings excluindo FX; (3) eventuais novas posições de portfólio (confirmadas no 13F do Q2, em setembro).

Ressalvas

A recompra do 2T26 é estimativa, não resultado. A projeção de até US$ 11 bilhões em recompras no segundo trimestre foi calculada a partir de registro na SEC e noticiada pela Barron's — não é número reportado pela companhia. O balanço do 2T26 estava previsto para 8 de agosto de 2026, depois da redação deste artigo. O dado deve ser reconfirmado contra o resultado oficial.

Dois critérios de lucro convivem no texto. O operating earnings cresceu 17,7% na comparação anual, mas 7,2% excluindo efeito cambial. São medidas diferentes e não devem ser usadas de forma intercambiável.

Preço-alvo é opinião de casa, não fato. O alvo de US$ 585 para BRK.B é do UBS e reflete a metodologia daquele banco.

Comparação de janela curta. A redução do descolamento em relação ao S&P 500 — de 17,5 para 7,6 pontos percentuais — mede dois meses. Janelas curtas amplificam movimentos e não indicam tendência.

Seção acrescentada em 2026-08-07, a partir de ressalvas que já estavam registradas em memoria/projeto.md mas não apareciam no artigo. Nenhuma afirmação do texto foi alterada.