O tamanho da dependência

O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que o agronegócio usa, sobretudo na soja, no milho e na cana. Em 2025 entraram no país 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes intermediários, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos. Só de fosfatados são cerca de 9 milhões de toneladas por ano: fosfato monoamônico (MAP), fosfato diamônico (DAP), superfosfato simples e superfosfato triplo.

A origem é onde mora o risco. Os principais fornecedores são Rússia e China, e neste ano a China passou a restringir a exportação de fosfatados para segurar o preço no mercado interno.

Vale separar dois percentuais que circulam juntos e não dizem a mesma coisa. Os mais de 80% valem para o total de fertilizantes. Quando se olha só os adubos à base de fosfato, o importado atende cerca de 70% da demanda.

Por que o fósforo é o problema mais difícil

O fósforo é o segundo nutriente mais importante da agricultura, atrás só do nitrogênio. A diferença entre os dois define o problema: o nitrogênio está no ar, em abundância, enquanto as fontes minerais de fósforo são finitas e não se renovam.

O medo de esgotamento próximo diminuiu — as estimativas apontam reservas para séculos. Mas a concentração em poucos países produtores continua, e os choques de preço também.

Há ainda um problema de solo. Os solos tropicais brasileiros são ácidos e ricos em óxidos de ferro e alumínio. Eles prendem rápido o fósforo solúvel, que deixa de chegar à planta. Isso derruba a eficiência de qualquer adubo fosfatado que se aplique.

A frente legislativa — Profert

Na tarde de terça-feira, 11 de agosto de 2026, o plenário do Senado aprovou em votação simbólica o Projeto de Lei 699/2023, que cria o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert).

O programa prevê incentivos fiscais e um fundo para apoiar a produção nacional. Inclui isenção de imposto para importar máquinas e para montar fábricas em território brasileiro. O texto aprovado é o substitutivo que veio da Câmara, com ajustes de redação da relatora Tereza Cristina (PP-MS).

O projeto foi à sanção presidencial. Ainda não é lei.

A frente técnica — estruvita

A estruvita é um mineral branco que se forma a partir de efluentes ricos em nitrogênio e fósforo — no caso brasileiro, os dejetos da criação de porcos. Tem cerca de 12% de fósforo, 5% de nitrogênio e 10% de magnésio, e funciona como adubo de liberação lenta.

IndicadorResultado
Demanda de fósforo suprida em sojaaté 50%
Produtividade mantida3,5 t/ha
Média nacional da soja em 2025, adubação convencional3,56 t/ha
Eficiência na recuperação do fósforo aplicadosuperior à do convencional
Doses testadas50% a 100% da recomendação agronômica

A vantagem em solo tropical vem de uma característica química. A estruvita reage de forma alcalina, ao contrário dos adubos solúveis, que são ácidos. Isso melhora o aproveitamento do nutriente justamente onde o solo mais o prende.

Os pesquisadores também criaram um organomineral, misturando nutrientes minerais com matéria orgânica. Em ensaios de difusão de fósforo no solo, essa formulação rendeu 50% a mais nos primeiros 28 dias que a estruvita granulada pura.

Quem coordena é Caio de Teves Inácio, da Embrapa Agrobiologia. Participam sete instituições: além da Agrobiologia, a Embrapa Solos e a Embrapa Suínos e Aves, mais UFSC, UFSM, Universidade de Rio Verde e Instituto Federal Farroupilha.

O que a fonte primária revela e a cobertura não registrou

A página do projeto no portal da Embrapa traz duas informações que não aparecem em nenhuma reportagem.

O projeto está concluído. Começou em 1º de dezembro de 2022 e terminou em 30 de junho de 2026, seis semanas antes desta publicação. O que existe hoje não é pesquisa em andamento: é tecnologia validada em campo à procura de quem adote. Não há rota comercial anunciada, licenciamento divulgado nem parceria industrial informada.

Há lastro científico publicado, com três trabalhos ligados ao projeto: precipitação de estruvita em lixiviado de compostagem, de 2022; resposta do milheto à adubação com estruvita e composto orgânico, de 2023; e difusão de fósforo em solo com organominerais à base de estruvita, de 2024.

Dimensionamento — cálculo próprio

A Embrapa estima potencial de 340 mil toneladas por ano de estruvita em propriedades com mais de 5 mil porcos. Confrontei esse número com as importações. Os cálculos abaixo são meus e não constam de nenhuma fonte.

Em massa, 340 mil sobre 9 milhões de toneladas dá 3,8% das importações de fosfatados.

Em fósforo de fato entregue, a fração cai para cerca de 2%. A estruvita concentra 12% do nutriente, enquanto MAP e DAP ficam entre 20% e 23%. Em números absolutos, as 340 mil toneladas carregariam aproximadamente 41 mil toneladas de fósforo.

A leitura honesta é esta: no total nacional a contribuição é pequena. O valor está em outro lugar. Está em dar destino a um passivo ambiental, em criar renda para o suinocultor e, principalmente, em destravar granjas hoje limitadas pela quantidade de nutriente que podem jogar no solo.

O contexto internacional

O interesse pela estruvita cresceu na última década. Em 2019 já havia mais de 80 instalações de produção no mundo. Elas se concentram em países desenvolvidos que sofrem com excesso de fósforo, seja por pecuária intensiva, seja por densidade populacional alta. China, Estados Unidos e Alemanha lideram a pesquisa.

A participação brasileira ainda é pequena, e a lacuna que a Embrapa ataca é específica: como a estruvita se comporta em solo tropical, que é onde o fósforo mais se perde e onde os dados internacionais não valem.

Consequências

Camadas rotuladas, conforme a convenção do projeto.

A — Declarado pelas instituições

A relatora do Profert diz que o programa quer reduzir a dependência de importação e trazer “soberania” em fertilizantes. Caio de Teves Inácio descreve a estruvita como “economia circular aplicada à agropecuária”, que transforma “um passivo ambiental, que são os efluentes animais, em um insumo agrícola de alto valor agregado”. Ele a classifica como “alternativa economicamente viável e especialmente atrativa para médios e grandes criadores de suínos”.

B — Sustentado por terceiros nomeados

Não encontrei avaliação independente da tecnologia nem análise crítica do Profert assinada por terceiros. Esta camada está vazia, e o vazio é informação: a única voz técnica no material disponível é a da instituição que desenvolveu o produto.

C — Derivação própria, a partir dos dados

A escala não sustenta a conversa de substituição. Pelos números da própria Embrapa, o teto do potencial fica em torno de 2% do fósforo importado. Isso faz da estruvita uma solução localizada, não uma resposta à dependência nacional.

Quem ganha não é o produtor de grãos, é o suinocultor. Todo o ganho documentado — renda extra, destino para o efluente, fim do limite de aplicação de nutrientes — está do lado de quem gera o dejeto.

Profert e estruvita atacam o mesmo problema em prazos incompatíveis. Fábrica de fertilizante leva anos entre o incentivo fiscal e a produção. A estruvita depende de adoção espalhada por milhares de propriedades. Nenhuma das duas muda a dependência na safra atual.

Ressalvas

O Profert ainda não é lei. Depende de sanção presidencial, e o texto pode ser vetado em parte.

A estimativa de 340 mil toneladas é da própria Embrapa, sem verificação independente. E é potencial teórico, condicionado à adoção por propriedades com mais de 5 mil porcos. Não há dado sobre quantas propriedades se enquadram, sobre quanto custa montar o sistema de precipitação nem sobre por quanto a estruvita seria vendida. São essas três variáveis que determinariam a viabilidade econômica que o pesquisador afirma existir.

Limitação de apuração registrada: o release da Embrapa sobre a pesquisa está com o corpo do texto suprimido no portal, por restrição da legislação eleitoral. O aviso informa que notícias anteriores a 04/07/2026 não são exibidas até o fim das eleições. Trabalhei com os metadados da página, com a página do projeto, que continua acessível, e com a reportagem da Gazeta do Povo.

Este resumo é informativo e não é recomendação de compra ou venda.