A polêmica que não impediu as vendas
O Ferrari Luce foi apresentado em 25 de maio de 2026, num evento em Roma, e a reação online veio na hora. As redes sociais compararam o desenho do carro ao de utilitários populares. As ações da Ferrari caíram mais de 8% nos pregões seguintes — uma das piores respostas do mercado a um lançamento na história da empresa.
Luca Cordero di Montezemolo, que presidiu a Ferrari por mais de duas décadas, foi à imprensa italiana dizer que o Luce deveria perder o Cavallino Rampante. Ou seja: que o carro não deveria se chamar Ferrari.
Nada disso mexeu no livro de pedidos. Segundo o Financial Times, a meta da Ferrari era vender “pouco menos de 500 unidades” do Luce em 2026. A cota acabou no começo de julho, cerca de dois meses depois do lançamento e antes de o primeiro cliente receber o carro. As entregas só começam em outubro.
A Ferrari não confirmou os números publicamente e disse que daria detalhes sobre a recepção do Luce no balanço do primeiro semestre, em 30 de julho. Um executivo graduado disse ao FT que o desenho incomum veio de exigências de aerodinâmica e precisa ser “digerido” antes de ser entendido.
Quem comprou — e por quê
Quem comprou não foi o colecionador histórico da marca. Foram dois perfis novos.
A China liderou: o lote de 88 unidades destinado ao país esgotou ainda em junho, pouco mais de um mês depois do lançamento. Nos Estados Unidos, quem respondeu foram os empreendedores de tecnologia do Vale do Silício, região onde carro elétrico já é escolha normal de quem quer mostrar status.
A Ferrari orientou as concessionárias a não empurrar o elétrico para o cliente tradicional. O Luce foi desenhado para conquistar uma camada nova de compradores ricos, não para trocar o esportivo a combustão na garagem do purista. Scott Sherwood, analista independente do mercado de carros de luxo ouvido pelo FT, diz que a Ferrari conhece o cliente que quer alcançar com seu primeiro elétrico “em outro nível em relação a muitos de seus concorrentes”.
Na mesma época, a empresa anunciou a saída de Enrico Galliera, diretor de marketing e vendas de longa data, substituído por um executivo vindo da BMW. A Ferrari informou que a troca fora decidida antes do lançamento do Luce.
O hardware por trás do debate estético
Enquanto o desenho dividia opiniões, a engenharia do Luce passava quase despercebida.
É um sedã de quatro portas e cinco lugares. Entrega mais de 1.000 cv com quatro motores independentes, bateria de 122 kWh em arquitetura de 880 volts, recarga a 350 kW, autonomia acima de 530 quilômetros e 0 a 100 km/h em 2,5 segundos.
Boa parte do sistema a Ferrari desenvolveu por dentro: rotores em arranjo Halbach, inversores de carboneto de silício com 93% de eficiência e uma suspensão ativa elétrica que reage em um milissegundo.
O carro foi desenhado por Jony Ive e Marc Newson, do estúdio LoveFrom — os mesmos que definiram a estética dos produtos da Apple por décadas.
A estratégia de longo prazo
Esgotar a cota de 2026 é um dado, não uma conclusão.
A meta de longo prazo da Ferrari é vender cerca de 2.500 unidades do Luce até 2030, ou perto de 600 carros por ano — algo como 5% de tudo o que a empresa produz. E vale lembrar que ela já havia cortado pela metade suas metas de venda de elétricos para 2030. O Luce é, de propósito, volume pequeno dentro de uma linha que segue dominada pela combustão.
O presidente Benedetto Vigna repetiu que entrar no elétrico não vai derrubar as margens altas da empresa. O argumento se apoia exatamente no volume baixo e no preço de entrada de 550 mil euros.
A primeira unidade de produção vai a leilão na Monterey Car Week, na Califórnia, em agosto, pela Sotheby's. A casa estima lance acima de US$ 1,1 milhão, cerca de R$ 5 milhões — quase o dobro do preço de tabela.