A operação
O Bradesco anunciou em 29 de julho de 2026 uma subscrição privada de novas ações que pode elevar o capital do banco em até R$ 10 bilhões. Subscrição privada é a venda de ações novas aos acionistas que o banco já tem, sem passar pela bolsa.
A oferta prevê até 604,9 milhões de ações novas: 302,9 milhões ordinárias (BBDC3) e 302 milhões preferenciais (BBDC4). O preço saiu a R$ 15,43 e R$ 17,64, respectivamente — um desconto de 4% a 6% sobre o fechamento de 29 de julho.
Quem tiver ações em 4 de agosto de 2026 ganha o direito de comprar primeiro, entre 6 de agosto e 4 de setembro, na proporção de cerca de 5,7% do que já possui. Quem exercer todo o direito não perde participação. Quem ficar de fora pode ver sua fatia encolher até 3,4%.
O banco ainda antecipou para 15 de setembro o pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio já declarados, e ofereceu ao acionista a opção de usar esse dinheiro para pagar a subscrição.
O papel das controladoras
Uma característica separa esta operação das emissões anteriores. O grupo controlador — Cidade de Deus, NCF, Nova Cidade de Deus e Fundação Bradesco, dono de 72% das ações com direito a voto e 37% do capital total — se comprometeu a colocar até R$ 8 bilhões. É o piso para a oferta acontecer. Ou seja: a operação sai de pé mesmo que nenhum acionista minoritário apareça.
Pedro Leduc, do Itaú BBA, chamou atenção para a desproporção. Os controladores entram com 80% do volume, “muito acima de sua participação de 37% no capital total”, o que ele lê como “um claro sinal de confiança”. O presidente do banco, Marcelo Noronha, confirmou que o pedido partiu das próprias controladoras.
A diferença em relação a 2015 é estrutural. Naquele ano o Bradesco anunciou um aumento de capital e o cancelou em 2016, quando o mercado ficou volátil. Desta vez o compromisso veio antes, e o risco de a operação não sair deixou de existir.
Por que agora e para quê
Noronha explicou o gatilho. As controladoras decidiram depois que o retorno sobre o patrimônio do banco superou o custo de capital pela primeira vez desde o começo do plano de transformação. Em outras palavras: o banco voltou a render mais do que custa manter o dinheiro dos acionistas nele. Isso aconteceu no quarto trimestre de 2025, com retorno de 15,2%, e se manteve no primeiro trimestre de 2026, em 15,8%. As controladoras também apostam em queda da Selic nos próximos trimestres.
O dinheiro captado vai para tecnologia, eficiência comercial e expansão dos negócios. Serve também para acelerar o uso dos créditos tributários diferidos, prejuízos passados que o banco pode abater de imposto futuro. O Bradesco acumula cerca de R$ 120 bilhões desse ativo, que só vira valor quando há lucro suficiente para absorvê-lo. O JP Morgan observou que, com a Selic acima de 14% ao ano, engordar o patrimônio “pode representar uma vantagem competitiva”.
Impacto no capital
O índice de capital principal do banco — a folga que o regulador exige para absorver perdas — estava em 12,7% no primeiro trimestre de 2026, já contando a consolidação da BradSaúde. Se a oferta for toda subscrita, o índice sobe para cerca de 13,6%, ganho de 0,9 ponto percentual, segundo cálculo do BTG Pactual.
A captação também reforça o patrimônio tangível, que é o patrimônio depois de descontados os ativos que não viram dinheiro numa crise. O BTG estima esse valor em cerca de R$ 28 bilhões, apenas 16% do patrimônio contábil de R$ 173,5 bilhões.
O contexto do turnaround
O aumento de capital é um capítulo de uma recuperação mais ampla. O Bradesco atravessou um ciclo severo de calote no pós-pandemia. A crise levou à troca de comando em novembro de 2023, quando Marcelo Noronha assumiu.
O plano que ele montou apertou a concessão de crédito, cortou exposição aos segmentos que davam prejuízo e investiu em tecnologia. Os resultados vieram: lucro de R$ 6,5 bilhões no quarto trimestre de 2025, alta de 20,6% sobre o mesmo período do ano anterior, e R$ 6,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026. A ação preferencial subiu 60% em 2025.
Leituras divergentes do mercado
A ação caiu 2,5% no pregão do anúncio.
O BTG achou a operação positiva, mas ressalvou que “novas medidas deverão ser adotadas” adiante. O Citi levantou três hipóteses para explicar a hora escolhida: aproveitar uma janela favorável com apoio dos controladores; captar antes que o período eleitoral agite o mercado; ou acelerar o uso dos créditos tributários.
A XP foi a mais reticente. Para a corretora, a hora escolhida “levanta questionamentos sobre a capacidade de geração orgânica de capital, especialmente em um momento em que os investidores voltam a concentrar sua atenção no ciclo de crédito e em um ambiente macroeconômico potencialmente mais desafiador”. Traduzindo: se o banco precisa pedir dinheiro aos donos, talvez não esteja gerando capital sozinho no ritmo esperado.
A leitura do mercado, no conjunto, é favorável no médio prazo e cautelosa no curto.