Mais testes antes do paciente
Empresas que criam remédios com ajuda de inteligência artificial passaram a encomendar muito mais experimentos de laboratório. Cada molécula que o computador sugere precisa ser testada em células antes de chegar a uma pessoa.
O relato é de Tom Fleming, cofundador e ex-presidente da Arctoris, empresa de Oxford, no Reino Unido, que faz esses experimentos sob encomenda com robôs. Ele falou num seminário on-line da Bernstein, corretora americana cujos analistas estudam empresas para orientar quem investe em ações.
O relatório da Bernstein saiu em 16 de outubro de 2026 e foi resumido pelo Investing.com no dia seguinte. A íntegra do relatório não é pública.
Segundo Fleming, a encomenda de dados para treinar programas de IA começou em empresas novas, financiadas por capital de risco. Hoje, as grandes farmacêuticas respondem pela maior parte do que a Arctoris produz, sem contar algumas parcerias.
Em alguns clientes, a procura por dados cresceu de 10 a 100 vezes, segundo Fleming. Ele não disse em quanto tempo.
Quem vende o equipamento
Para Fleming, ganham os fabricantes de aparelhos que produzem dados complexos em grande volume. Ele citou o Opera Phenix, da Revvity (RVTY 🇺🇸), aparelho que fotografa e mede milhares de amostras de células de uma vez.
Citou também a 10x Genomics (TXG 🇺🇸), que fabrica aparelhos para medir a atividade dos genes célula por célula. Desde outubro de 2025, as ferramentas da 10x funcionam dentro do Claude, assistente de IA da Anthropic, numa parceria sem valores divulgados. A Anthropic faz a inteligência artificial usada na pesquisa e redação deste resumo.
Em 4 de agosto de 2026, dois meses antes do relatório, o presidente da Revvity, Prahlad Singh, disse que os pedidos ligados à IA crescem de forma clara e cada vez maior.
Segundo Singh, a encomenda do Opera Phenix, que custa mais de US$ 1 milhão, cresce mais rápido do que a fábrica consegue entregar. Nos aparelhos de imagem de células, pedidos e vendas cresceram mais de 10% de abril a junho de 2026, sobre o mesmo período de 2025.
No mesmo trimestre, a divisão de ciências da vida da Revvity faturou US$ 359 milhões. A alta foi de poucos pontos percentuais sobre abril a junho de 2025, sem contar aquisições, segundo o diretor financeiro Maxwell Krakowiak.
A Illumina (ILMN 🇺🇸), fabricante de máquinas que leem o DNA, pode vender mais leituras, na avaliação de Fleming. A queda de preço de cada leitura, porém, pode segurar a receita.
Empresas que produzem dados sob encomenda, como a Arctoris, também veem o custo de cada resultado cair. Isso pode anular parte do ganho com o volume maior.
Os materiais químicos consumidos em cada teste também devem sair mais, segundo Fleming. Moléculas desenhadas por IA exigem muitos testes físicos antes de avançar.
O que a IA já mostrou nos ensaios clínicos
Fleming disse que o ganho de longo prazo virá de mais remédios aprovados nos ensaios com pacientes. Ele ressalvou que provar esse ganho pode levar anos.
Um estudo de consultores do Boston Consulting Group (BCG), publicado em 2024 na revista Drug Discovery Today, mediu essa taxa. Na fase 1, que testa a segurança em poucas pessoas, de 80% a 90% das moléculas criadas com IA passaram para a etapa seguinte.
A média histórica do setor na fase 1 fica entre 40% e 65%, segundo o resumo do estudo publicado pelo site HTWorld.
Na fase 2, que mede se o remédio funciona, a taxa das moléculas criadas com IA ficou em cerca de 40%, igual à média do setor. Os autores avisam que a amostra da fase 2 é pequena e que a análise é preliminar.
O coração entre os testes que vêm antes
Antes de chegar ao paciente, os remédios novos passam por testes para saber se fazem mal ao coração. De 462 remédios retirados do mercado entre 1953 e 2013, 63 saíram por causar problemas inesperados no coração ou nos vasos sanguíneos, ou 14%. O dado está numa revisão publicada em fevereiro de 2024 na revista Frontiers in Pharmacology.
Um dos testes que substituem animais usa células cardíacas humanas, criadas em laboratório a partir de células-tronco. Num estudo em dez laboratórios, com 28 remédios testados às cegas, o método previu corretamente o risco de arritmia em 87% dos casos.
Esse estudo faz parte de um programa criado com a FDA, a agência que regula remédios nos EUA, para avaliar o risco de arritmia fora do corpo.
Em 10 de abril de 2025, a FDA anunciou um plano para reduzir os testes em animais antes dos ensaios em pacientes. O plano começa pelos anticorpos monoclonais, remédios feitos a partir de proteínas de defesa do corpo, e inclui modelos de toxicidade feitos com IA.
Ressalvas
O crescimento de 10 a 100 vezes na procura por dados é estimativa de Fleming, sem período informado e sem medição independente. A Arctoris vende justamente esse serviço.
O relatório da Bernstein não é público. O texto se baseia no resumo do Investing.com, que tem o relatório como única fonte de informação para as declarações de Fleming.
A procura relatada pela Revvity é declaração da própria empresa, em teleconferência de resultados. A empresa não deu número separado para os pedidos ligados à IA.
As taxas de sucesso do BCG usam amostra pequena, sobretudo na fase 2. A íntegra do artigo não abriu pela ferramenta de leitura, e a média histórica de 40% a 65% vem do resumo publicado pelo HTWorld.
A parte sobre testes cardíacos não está no relatório da Bernstein. Ela entrou como contexto, a partir da revisão da Frontiers in Pharmacology e do anúncio da FDA.
A imagem do artigo de origem tem crédito da Reuters e não foi usada. No acervo da NASA, as fotos de chips com tecido cardíaco têm crédito da Universidade do Alabama em Birmingham e da empresa Emulate, o que impede o uso livre. Unsplash e Pexels não foram consultados pela ferramenta.
Divulgação de conflito de interesse: a 10x Genomics, citada neste resumo, é parceira comercial da Anthropic desde outubro de 2025. A Anthropic faz a inteligência artificial usada na pesquisa e redação deste resumo. Nenhum dado foi obtido junto à Anthropic.