A estratégia: distribuição sem desenvolvimento
A Waymo, da Alphabet, gastou décadas e dezenas de bilhões de dólares para desenvolver tecnologia própria de direção autônoma. A Uber foi no sentido oposto: virou a infraestrutura de demanda do setor inteiro.
Segundo o TechCrunch, a empresa fechou parceria com cerca de 30 companhias de veículos autônomos nos últimos dois anos. Em alguns casos investiu diretamente nelas.
A lógica é direta. O ativo mais escasso do setor não é o algoritmo que dirige. É a base de usuários e a malha logística que transformam protótipo em produto comercial — e isso a Uber já tem.
Avride em Dallas: da prova de conceito aos 60 mil passageiros
A demonstração mais concreta do modelo está em Dallas. Em 3 de dezembro de 2025, Uber e Avride lançaram o primeiro serviço comercial de robotáxi pelo aplicativo da Uber na cidade. A Avride é uma startup de Austin, no Texas, que opera desde 2017.
Os carros são Hyundai Ioniq 5 elétricos da Avride. Aparecem para quem pede UberX, Uber Comfort e Uber Comfort Electric, sem custo extra, numa área inicial de 9 milhas quadradas entre Downtown, Uptown, Turtle Creek e Deep Ellum.
Em junho de 2026 a Avride divulgou os primeiros números: mais de 60 mil viagens concluídas na plataforma da Uber, frota acima de 200 veículos e 1,3 milhão de milhas rodadas em modo autônomo. Cerca de 1 milhão dessas milhas é só de 2026. A área de serviço dobrou desde o lançamento, e há novas expansões previstas.
Os números são declarados pela própria Avride, pelo LinkedIn, e ninguém de fora auditou. É o padrão do setor para startup fechada de veículo autônomo.
O serviço ainda roda com um especialista a bordo, monitorando do banco do motorista. A fase sem ninguém dentro está prevista para depois, sem data.
Waymo: parceria comercial, não aliança permanente
A relação entre Uber e Waymo mostra a natureza do modelo. São contratos comerciais que se rearranjam, não integrações permanentes.
O piloto de robotáxis da Waymo pelo aplicativo da Uber em Phoenix acabou em 29 de junho de 2026, no fim do prazo do contrato. Os carros foram para o serviço de entregas da DoorDash. A Waymo continua na plataforma da Uber em Austin e em Atlanta.
Sair de Phoenix não é rompimento. É exatamente como o modelo funciona: a Uber mantém liberdade para escolher parceiro por mercado, trocar fornecedor e abrir rota nova conforme a tecnologia e a regra de cada cidade amadurecem.
O que está em jogo para investidores
O modelo coloca a Uber como beneficiária neutra da corrida. Vença quem vencer na direção autônoma, a plataforma que distribui continua necessária.
Com 68 bilhões de viagens no histórico e presença em dezenas de países, a empresa tem o que nenhuma startup de veículo autônomo consegue montar depressa: base de usuários ativa e marca conhecida.
A meta declarada é operar carros autônomos em mais de dez cidades até o fim de 2026.
O risco espelha o benefício. Atraso regulatório, recall técnico ou problema de segurança numa parceira estraga a experiência dentro do aplicativo da Uber — e a Uber não controla nenhuma dessas variáveis.