Os números da captação

No primeiro semestre de 2026, os FIAGROs emitiram R$ 8,3 bilhões em ofertas públicas. É 288,3% a mais que no mesmo período do ano anterior, segundo o Boletim de Mercado de Capitais da Anbima de 27 de julho.

O número entra no melhor semestre da história do mercado de capitais brasileiro: R$ 361,8 bilhões no total, recorde desde 2012, com alta de 9,8% e 1.513 operações, 13% a mais.

Os FIAGROs cresceram mais rápido que os fundos imobiliários, que captaram R$ 39,5 bilhões e subiram 103,9%. Somados, os dois instrumentos levantaram R$ 47,8 bilhões.

Quem comprou também mudou. As pessoas físicas saltaram de R$ 9,7 bilhões para R$ 20,7 bilhões, alta de 114,3%. Os fundos de investimento foram de R$ 6 bilhões para R$ 18,9 bilhões, alta de 215%.

Só no primeiro trimestre, os FIAGROs já haviam somado R$ 3,3 bilhões, 97,5% a mais que um ano antes. Dados da Anbima compilados pela BPMoney apontam captação líquida de R$ 4,37 bilhões até maio de 2026, com alta de 126,5%. São métricas diferentes: emissão mede o que foi ofertado; captação líquida mede o que entrou menos o que saiu.

O que são FIAGROs

O FIAGRO junta dinheiro de vários investidores para aplicar em ativos ligados ao agronegócio. Pode comprar imóvel rural, título de crédito, participação em empresa, direito a receber e cotas de outros fundos.

A maioria dos fundos em circulação concentra a carteira em Certificados de Recebíveis do Agronegócio, os CRAs — papéis que representam dívidas do setor e pagam juros a quem os compra. São hoje os títulos mais presentes no segmento.

A cota se compra na B3, com gestão profissional. E boa parte dos rendimentos é isenta de Imposto de Renda para pessoa física, desde que o fundo cumpra as condições que a regra exige.

Resolução CVM nº 214 e o Fiagro Multimercado

A aceleração tem um gatilho regulatório. A Resolução CVM nº 214, em vigor desde 3 de março de 2025, fechou o marco regulatório da classe. Ela entrou como Anexo VI da Resolução CVM 175/22, que é a regra geral dos fundos de investimento no Brasil.

A novidade principal foi o Fiagro Multimercado. Antes, cada fundo se prendia a um tipo de ativo. Agora um só fundo pode ter, ao mesmo tempo, imóvel rural, direito a receber, crédito de descarbonização e outros títulos do agronegócio.

Os fundos que já existiam tiveram até 30 de setembro de 2025 para se adaptar. Com a regra assentada, a Anbima espera que cresça o interesse pelo formato multimercado entre quem procura diversificar dentro do próprio setor.

Desempenho em 2026: 13% e quase o dobro do CDI

O agronegócio vive um ciclo duro em partes importantes, e mesmo assim os FIAGROs acumulam mais de 13% de retorno em 2026. No mesmo período, as ações na bolsa renderam cerca de 7,13% e o CDI ficou em torno de 6,68%, segundo dados do BTG Pactual compilados pela BPMoney. Em doze meses, o retorno médio da classe chegou a 29,75%.

O resultado mostra quais gestores souberam escolher ativo e atravessar o período de calote com a carteira inteira. O caso mais emblemático das dificuldades foi o pedido de recuperação judicial da AgroGalaxy, que derrubou as cotas dos fundos expostos à empresa.

Octaciano Neto, fundador da Zera.ag, disse à BPMoney que o setor passou por uma seleção natural. Os fundos que saíram da turbulência com a carteira preservada voltaram a captar com força.

A crise seletiva e o paradoxo do agronegócio

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. O país colheu quase 1 bilhão de toneladas nos últimos três anos, recorde histórico. E 2025 registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no setor, também recorde da série da Serasa. Desses, 853 vieram de produtores rurais pessoa física.

Mas o problema tem endereço. Soja e milho concentram a maior parte das dificuldades. Entre 2019 e 2022, preço internacional alto e juro baixo — a Selic chegou a 2% ao ano — levaram o produtor a crescer arrendando terra. Depois a oferta mundial se normalizou e o preço das commodities caiu. O custo, não: fertilizante, arrendamento e financiamento continuaram caros.

Do outro lado, proteína animal, açúcar, café, algodão e suco de laranja atravessam ciclo favorável. É essa diferença entre culturas que explica como os fundos entregaram retorno positivo enquanto as recuperações judiciais batiam recorde.

O juro fecha o quadro. Com a Selic a 15% ao ano, os financiamentos subsidiados do Plano Safra 2025/26, de R$ 605 bilhões anunciados, custam entre 8,5% e 14% ao ano. Fora deles, o crédito privado via CPRs e CRAs cobra de 18% a 20%. Os bancos ficaram mais receosos, e o fundo virou canal atraente de crédito para o setor — o que realimenta a captação.

Perspectivas e riscos

Os gestores ouvidos pela BPMoney esperam que os FIAGROs comprem mais terra diretamente e diversifiquem carteira com a regra multimercado. Gustavo Gomes, que chefia a área de crédito ao agronegócio da XP Asset, observa que os momentos difíceis costumam abrir espaço para oportunidade nova.

O curto prazo pede cautela. Juro alto, risco climático e endividamento do produtor de grãos são os pontos de atenção.

E vale a advertência que os analistas repetem: captação recorde não garante retorno parecido entre os fundos. Antes de aplicar em qualquer um deles, é preciso olhar o preço de emissão, a qualidade dos ativos, o quanto o fundo tomou emprestado, a estratégia da gestão e o histórico da gestora.