A SpaceX compra a faixa de 800 MHz da Grain
A SpaceX (SPCX 🇺🇸), empresa de foguetes de Elon Musk, comprou o direito de usar uma faixa de frequência de celular que funciona dentro de casa. Com ela, pode passar a vender plano de celular nos EUA contra as três grandes operadoras do país.
A vendedora é a Grain Management, gestora americana que investe em infraestrutura de telecomunicações. As duas empresas anunciaram o acordo em 8 de outubro de 2026. A SpaceX fica com toda a faixa de 800 megahertz (MHz, unidade que mede a frequência do sinal) que a Grain tinha nos Estados Unidos.
A Grain e a SpaceX não divulgaram o preço. O jornal The Wall Street Journal informou, com base em pessoas a par do negócio, que a SpaceX pagará US$ 8 bilhões em dinheiro.
O negócio ainda depende da FCC, a agência que regula as telecomunicações nos EUA. A SpaceX pediu aprovação rápida, segundo a Light Reading, site do setor de telecomunicações. O Departamento de Justiça americano também vai analisar a compra, segundo o site especializado SatNews.
O sinal que atravessa paredes
O serviço de celular da SpaceX se chama Starlink Mobile. Hoje o sinal vem dos satélites da Starlink, a rede de internet por satélite da empresa. Esse sinal tem dificuldade para chegar ao interior de casas e prédios, segundo o site Axios.
O sinal na faixa de 800 MHz alcança longas distâncias e atravessa paredes, segundo o site financeiro Benzinga. Musk escreveu na rede social X que a compra é “a última peça crítica do quebra-cabeça” para cobrir todo o país com sinal de celular.
Em texto no próprio site, a SpaceX diz que a faixa resolve “uma das principais lacunas técnicas que ainda restavam” no plano. A empresa afirma também que a maioria dos celulares em uso já funciona nessa faixa, sem nenhuma mudança.
A SpaceX pretende usar a faixa em antenas no chão, instaladas em torres e telhados, segundo a Light Reading. Depois da aprovação da FCC, a empresa também quer levá-la aos próximos satélites, segundo o SatNews.
Segundo o Axios, a SpaceX planeja instalar pequenas antenas de celular ao lado das antenas de internet da Starlink que já estão em casas e empresas. Assim não precisaria construir torres.
Na véspera do anúncio, em 7 de outubro, a FCC autorizou a SpaceX a lançar 15 mil satélites para o serviço de celular, segundo a revista Via Satellite.
A faixa era da T-Mobile até agosto
A faixa de 800 MHz pertencia à operadora Sprint e passou à T-Mobile (TMUS 🇺🇸) quando as duas se fundiram, segundo o SatNews.
A Grain concluiu a compra da faixa em agosto de 2026. Pagou à T-Mobile US$ 2,9 bilhões em dinheiro e entregou frequências que tinha na faixa de 600 MHz, segundo a Light Reading e a Via Satellite.
A FCC aprovou essa compra em julho, com regras para o uso futuro da faixa em celular via satélite, segundo comunicado da Grain. A gestora afirma que a venda à SpaceX cumpre os objetivos dessa decisão.
Antes, a Grain planejava vender a faixa a empresas de serviços públicos, como energia, e a operadoras rurais e regionais, segundo o site brasileiro Teletime. Em agosto, o analista Roger Entner, da consultoria Recon Analytics, escreveu no X que a Grain “não é compradora final” da faixa.
O que ainda falta, segundo os analistas
A fatia comprada tem 14 MHz, e quanto maior esse número, mais tráfego a faixa comporta. Kutgun Maral, analista do banco Evercore ISI, chamou a fatia de “relativamente modesta”. Para ele, ela resolve mais a cobertura do que a capacidade da rede.
A consultoria New Street Research diz que a faixa não funciona nos satélites de celular que a SpaceX já tem em órbita. Para a consultoria, a SpaceX vai continuar bem atrás das três operadoras nas faixas de frequência baixa, as que atravessam paredes.
Craig Moffett, da consultoria MoffettNathanson, diz que a SpaceX “ainda está longe” de ter o necessário para oferecer o serviço. Ele vê como único caminho alugar a rede de uma das operadoras.
Walt Piecyk, da casa de análise LightShed Partners, duvida que a SpaceX coloque a faixa nos satélites. Ele espera que ela sirva de base para uma rede em terra, com os satélites por cima.
Entner, da Recon Analytics, trata a concorrência como certa. “Vai acontecer. Não é questão de se, é de quando”, disse à Light Reading.
Madison Rezaei, analista do banco Bernstein, lembra que comprar a faixa não obriga a SpaceX a construir uma rede nacional. Para ela, a faixa torna essa rede mais crível e mais barata, segundo o Axios.
A Verizon (VZ 🇺🇸) disse ao Axios que a faixa sozinha não dá à SpaceX uma rede para cobrir o país. John Saw, diretor de tecnologia da T-Mobile, afirmou que mais de 70% do tráfego de celular acontece em ambientes fechados.
John Stankey, presidente-executivo da AT&T (T 🇺🇸), chamou de “não viável” o plano das antenas ao lado das da Starlink, segundo o Axios.
As três operadoras perderam cerca de US$ 60 bilhões em um dia
No pregão de sexta-feira, 9 de outubro, a T-Mobile caiu 13,3%, a AT&T caiu 9,8% e a Verizon caiu 8,8%, segundo o Axios.
Juntas, as três perderam cerca de US$ 60 bilhões em valor de mercado entre o fechamento de quinta e o de sexta (cálculo próprio).
A perda equivale a mais de sete vezes os US$ 8 bilhões que o The Wall Street Journal atribui ao negócio (cálculo próprio).
Empresas que alugam torres de celular subiram no mesmo pregão. A Crown Castle (CCI 🇺🇸) ganhou perto de 15%, segundo a Light Reading e o Benzinga.
Ressalvas
Só o The Wall Street Journal publicou o preço de US$ 8 bilhões, citando pessoas a par do negócio sem nomeá-las. A Grain não informa o valor no comunicado. O WSJ não foi lido diretamente, por ser fechado a assinantes.
O negócio depende da FCC e do Departamento de Justiça, e as empresas não informaram prazo para a decisão.
O Axios fala em fim de 2027 para o lançamento do celular da SpaceX. Um título da Light Reading fala em 2028, e o texto dessa reportagem não foi lido.
O valor de mercado perdido é cálculo próprio. Pelos preços de fechamento, a perda das três soma US$ 62,3 bilhões. Descontados os dividendos da Verizon e da AT&T, fica entre US$ 57,5 bilhões e US$ 59,4 bilhões. O número de ações é o que cada empresa informou em julho à SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA, e não considera recompras de ações posteriores.
O Axios calculou cerca de US$ 36 bilhões antes da abertura, e o Benzinga, cerca de US$ 39 bilhões durante o pregão.
Não foram lidos o Financial Times, cujo título fala em US$ 60 bilhões, nem a CNBC, que não abriu pela ferramenta de leitura. A Reuters está bloqueada para a ferramenta e não foi consultada por outro meio.
Divulgação de conflito de interesse. A Anthropic, cliente da SpaceX no aluguel de capacidade de computação, é a empresa que desenvolveu a inteligência artificial usada na pesquisa e na redação deste resumo. Nenhum dado foi obtido junto à Anthropic; todos vêm das fontes de informação listadas.