Carros e cimento voltam ao volume dos anos 1950
O Reino Unido fabrica hoje tão poucos carros e tão pouco cimento quanto há cerca de 70 anos. Em 2025, as fábricas do país montaram 764.715 veículos, 15,5% menos que em 2024. É o menor volume desde 1952, segundo a SMMT, a associação das montadoras britânicas.
Os carros de passeio somaram 717.371 unidades, o menor número desde 1956. Vans e caminhões caíram 62,3% em relação a 2024, para 47.344 unidades. A queda veio sobretudo do fechamento da fábrica de vans da Stellantis (STLA 🇺🇸) em Luton, em abril de 2025.
As fábricas de cimento produziram 7,3 milhões de toneladas em 2024. É o menor volume desde 1950 e cerca de metade do que o país fazia em 1990. Os dados são da MPA, a associação dos produtores de cimento e de pedra para construção. O cimento importado já responde por 32% das vendas no país, contra 12% em 2008.
Química encolhe 60% e duas refinarias fecham
A produção da indústria química britânica caiu 60% desde 2021, segundo a Chemical Industries Association, que reúne as empresas do setor. Em carta ao primeiro-ministro de 3 de março de 2026, a entidade contou ao menos 25 fábricas fechadas no país.
O refino de petróleo perdeu duas unidades em 2025. A refinaria de Grangemouth, na Escócia, parou de processar petróleo em abril. Em julho, o governo anunciou o fechamento da refinaria de Lindsey, no leste da Inglaterra, que não encontrou comprador. A unidade processava 110 mil barris por dia, e 420 pessoas perderam o emprego, segundo a revista The Chemical Engineer.
Indústria culpa a energia e o carbono
A MPA atribui a queda do cimento ao preço da energia. Segundo a associação, a indústria britânica paga uma das contas de luz mais caras entre os países desenvolvidos. O cimento importado de fora da União Europeia, diz a MPA, não arca com o mesmo custo de emissão de carbono que o nacional.
A UK Steel, associação das siderúrgicas, diz que as usinas britânicas pagam 49% mais pela eletricidade que as francesas. A Chemical Industries Association pediu ao governo energia mais barata e mudanças no mercado de carbono britânico. Nesse sistema, as indústrias compram licenças para emitir gases de efeito estufa.
Nos carros, a SMMT cita outras causas para a queda de 2025. Um ataque hacker parou a Jaguar Land Rover, do grupo indiano Tata, por seis semanas a partir de setembro de 2025. A montadora produziu 21,7% menos que em 2024. As tarifas dos EUA também pesaram, e as exportações de veículos para lá caíram 18,3% em 2025.
Deputados do governo pedem energia mais barata e petróleo
O primeiro-ministro Andy Burnham prometeu reindustrializar o país. Em julho de 2026, mais de 90 deputados do Partido Trabalhista, o partido dele, criaram o Reindustrialisation Research Group para cobrar a promessa.
Um dos dirigentes do grupo, o deputado Henry Tufnell, publicou um artigo em 27 de outubro na revista The House, do site PoliticsHome. Ele pediu ao ministro da Fazenda, John Healey, que estendesse a toda a indústria o desconto na conta de luz das fábricas. O dinheiro viria de mudanças no mercado de carbono.
Tufnell pediu também ao primeiro-ministro que aprove o campo de petróleo de Rosebank e conceda novas licenças de perfuração no Mar do Norte. O deputado defende ainda o corte dos impostos sobre carbono.
“Devemos redobrar o nosso apoio à indústria britânica – aprovar o projeto Rosebank e conceder novas licenças para perfuração no Mar do Norte.” — Henry Tufnell, deputado trabalhista, na revista The House (tradução livre)
Orçamento mantém o desconto restrito
O orçamento saiu no dia seguinte, 28 de outubro, e não estendeu o desconto a toda a indústria. O programa do governo corta em até 25% a conta de luz de mais de 10 mil indústrias, a partir de abril de 2027. As empresas recebem ainda um pagamento único que cobre o desconto desde abril de 2026.
O desconto livra essas empresas de três cobranças embutidas na conta de luz, que financiam energia renovável e reserva de geração. Ficam de fora as fábricas que dependem sobretudo de gás e parte da cerâmica, segundo o The Manufacturer, site britânico de notícias da indústria. A federação dos fabricantes de alimentos e bebidas também criticou ter ficado de fora.
“Este orçamento não enfrentou nenhum dos custos fundamentais que travam o investimento e o crescimento da indústria”, disse Stephen Phipson (tradução livre). Ele é o executivo-chefe da Make UK, que reúne os fabricantes do país. A UK Steel chamou o orçamento de oportunidade perdida.
Rosebank divide o governo
Rosebank fica a noroeste das ilhas Shetland, no norte da Escócia, e tem reservas estimadas em 300 milhões de barris de petróleo. A norueguesa Equinor (EQNR 🇺🇸) detém 80% do campo, e a britânica Ithaca Energy, 20%, segundo a revista Offshore Technology, com dados de 2024.
O governo ainda não decidiu se aprova o projeto. Jornais britânicos noticiaram em 25 e 26 de outubro que Healey e Burnham querem a aprovação. A ministra de Energia, Miatta Fahnbulleh, a quem cabe a decisão, tende a rejeitar, segundo os mesmos relatos. Ela argumenta que Rosebank produziria petróleo sobretudo para exportação.
As organizações ambientais Uplift e Greenpeace contestam o projeto na Justiça e pedem a rejeição. Os sindicatos Unite e GMB defendem a aprovação. Não há data marcada para a decisão.
Ressalvas
Os números de produção vêm das associações de cada setor, SMMT, MPA e Chemical Industries Association, que também pedem ajuda do governo. A associação química não informa de onde tirou a queda de 60%.
O artigo de Tufnell cita outros números sem informar a fonte de informação. Ele fala em 81 mil empregos a menos na indústria no ano até março de 2026. A pesquisa da Make UK com a consultoria BDO dá 34 mil no mesmo período. Não se conferiu se as duas contas medem a mesma coisa.
Tufnell fala também em cerca de 200 fábricas fechadas em cinco anos e em 20% da capacidade de refino perdidos com Grangemouth e Lindsey. Atribui ainda à refinaria de Pembroke 14% do combustível do país. Nenhum dos três números foi confirmado em outra fonte de informação.
O deputado diz que a produção de tijolos está 20% abaixo da de 2021. A estatística oficial britânica mostra 1,557 bilhão de tijolos em 2025, alta de 17% sobre 2024. O volume de 2025 fica 20,5% abaixo do de 2022, primeiro ano da série publicada (cálculo próprio).
A divisão do governo sobre Rosebank chegou por dois sites que resumem o noticiário, o Energy-pedia e o Informed Clearly. Eles citam The Times, The Telegraph, Daily Mail, Mail on Sunday e The Guardian, que não foram lidos diretamente.